Terça-feira, 9 de Outubro de 2007
O gato amarelo
Outubro 09, 2007

A noite estava primaveril, com um céu estrelado e uma lua nova luminosa. Havia largos meses que não sentia a aragem leve de uma noite que deixava adivinhar um dia solarengo. Sorriu e inspirou demoradamente o cigarro, enquanto observava a desordem do jardim defronte da casa. Vasos ou recipientes toscos de plástico guardavam plantas amareladas e distribuíam-se caoticamente junto aos muros, caixotes que escondiam objectos inúteis amontoavam-se nos cantos, e uma mangueira serpenteava pela relva, abandonada. Engoliu em seco.

Reparou no muro mais distante. Exactamente à sua frente, um grande gato de riscas amarelas bocejava longamente. Fitou o animal que, depois de se espreguiçar, fixou-se imóvel no muro e lhe devolveu o olhar. Sorriu. «Pchhh, pchhh, pchhh – chamou baixinho – Gato! Pchhh, pchhh, pchhh. Gato!» Atento aos chamamentos, o animal fitava-o com desdém.
Lembrou-se dos tempos passados neste jardim, sempre povoado de gatos vadios que lhe violavam a privacidade dos muros. Primeiro nas tardes de futebol ou matraquilhos. Mais tarde em cigarros furtivos na casa de ferramentas ou beijos roubados debaixo das árvores.
Sentiu-a chegar de mansinho, e enroscar-se-lhe a partir das costas, com os braços miúdos a envolverem-lhe o peito. «Estás a pensar em quê?», perguntou com ternura. Sentia-lhe o calor do corpo e a respiração no pescoço. «Em nada. Estava a pensar em nada.» Segurou-lhe a mão.
- Estava apenas a observar aquele gato gordo de riscas amarelas que está ali em cima do muro – e apontou a direcção com o indicador da mão direita. A rapariga inclinou-se para espreitar por detrás do seu ombro esquerdo, sem o largar. «Onde?»
- Ali. Mesmo em frente – respondeu – Estás a ver a direcção do meu dedo? Disse, estendendo o braço na mesma direcção.
- Sim, sim! Já tou a ver! Exclamou num tom jovial, de rapariguinha nervosa.
Agarrou-lhe novamente a mão e sentiu o rosto dela pousar-lhe no ombro. «Sabes – disse baixinho – De cada vez que aqui venho recordo-me de histórias que aqui passei.»
- Hum, hum…
- Quando éramos pequenos, eu e a Marta, costumávamos brincar aqui dias inteiros. Já nessa altura o jardim estava sempre cheio de gatos. A minha mãe costumava deixar-lhes restos de comida e os bichos andavam sempre por aqui à procura de alguma coisa…
- Era mesmo típico dela. Pelo que contas… Gostava de ter conhecido a tua mãe.
- Uma vez, eu e ela descobrimos que uma gata tinha tido uma ninhada na casa das ferramentas. Foi uma confusão. A Marta sempre adorou animais e queria ficar com os gatos todos. Só que o meu pai detestava gatos… e ficou furioso com esta história toda. Ainda por cima porque a minha mãe não lhe tinha contado nada…
- O que é que aconteceu?
- Não sei… Não me lembro bem…
- Não acredito…
- Sério. Não me lembro… Provavelmente a Marta enfrentou o pai… Ela sempre foi mais corajosa do que eu… Acho que ficaram aqui uns dois meses, e ela lá terá arranjado umas amigas para ficarem com eles…
«A tua irmã sempre conseguiu aquilo que queria…» Escutou-a dizer, antes de a sentir esconder um bocejo com a mão esquerda.
Soltou-se do braço que ainda o envolvia e virou-se para ela enquanto fechava a janela. «Anda. Vamos para dentro. Estás cansada e tens de descansar… Devias deitar-te».
- Já vou… Só vou se tu vieres. Também estás cansado. Vejo-o nos teus olhos. A viagem foi longa. E amanhã tens tanto que fazer…
Sorriu-lhe. Em silêncio, dirigiu-se ao bar e observou as garrafas. Pegou numa com um resto de uísque que depositou num copo achado dentro do armário. «Ainda vais beber? Já é tão tarde…» Escutou-a dizer num tom que julgou levemente reprovador. Voltou-se com o copo na mão e viu-a sentada no sofá, a olhar para ele, com a mão direita a anelar o cabelo mecanicamente. «Estás outra vez a fazer caracóis…» Disse-lhe, despoletando o imediato travar do movimento. «Nem dou por isso… é tão natural e inconsciente» Ripostou num tom maçado.
Sentou-se, pousando o copo sobre a mesa. Ela cruzara os braços e fitava-o, indiferente à televisão que se escutava em murmúrio. «Está a dar alguma coisa de jeito? – perguntou, despoletando uma certa perplexidade – Na televisão…»
- Não sei… não tenho estado a ver nada. Queres o comando?
Abanou negativamente a cabeça.
- O que é que combinaste com a tua irmã? Vais ter com ela amanhã?
- Sim.
- Já sabes o que vão fazer com as coisas que eram dos vossos pais? Ela quer ficar com esta casa?
- Não sei bem. Acho que a Marta falou qualquer coisa sobre um advogado. Penso que a ideia é pôr tudo à venda. É só eu assinar os papéis. Sinceramente não quero pensar muito nisso.
- Acho que é o melhor…
«O que é que é melhor?» Lançou-lhe um olhar firme e interrogador.
- Isso de venderem a casa. Está velha e estragada… a precisar de obras…
- E cheia de recordações…
- Dizes isso porque estás aqui agora. Quando regressarmos a Londres, vais ver como isso vai passar. Afinal, ainda está tudo muito fresco…
Olhou-a nos olhos com um sorriso triste. «Achas? – antes de dar mais um golo no uísque». Ela deixou escapar um bocejo. «Ai… Desculpa… – passou a mão pelo rosto – tenho a certeza.»
Pousou os olhos nos motivos da carpete e agitou circularmente o líquido amarelo dentro do copo. «Sabes… A vida é como um dente… – deixou escapar num sussurro.»
- Como?
Olhou-a no mesmo sorriso vago. «A vida é como um dente… É um poema de um tipo francês. Primeiro nem dás por ele e usa-lo distraidamente para mastigar. Até que um dia começa a doer e quando dás por isso, tens de o arrancar da tua própria vida. – olhou-a fixamente – É assim com tudo na vida. Não lhe dás valor até que o perdes.»
As palavras ficaram a ecoar no silêncio desajeitado. «Lá estás tu com as tuas ‘francesices’ literárias – ripostou por fim enquanto se espreguiçava – É sempre a mesma coisa».
Ele sorriu-lhe. «Porque é que não te vais deitar? Pareces cansada. Tens uns olhinhos assim – semicerrou os olhos a imitá-la – pequeninos. Só vou beber isto e já vou ter contigo.»
Ela contraiu o rosto, mas não conteve um novo e prolongado bocejo, mal dissimulado por detrás da mão. «Desculpa – disse, espreguiçando-se – Estou mesmo cansada.»
- A sério, vai-te deitar. Eu não demoro.
- Prometes?
- Prometo.
- Então, acho que não resisto. Vou para a caminha fazer ó-ó… Mas não demores. Não gosto de ficar sozinha nesta casa.
- Está bem… Não vou demorar.
Ela ergueu-se, espreguiçou-se com os braços esticados, os olhos quase fechados e o rosto franzido, e curvou-se junto dele com os lábios a pedirem um beijo. «Beijinho! – disse calorosa – Quero um beijo de boa noite!»
Um beijo. Dois beijos. Três beijos. «Amas-me?» Quatro beijos. «Sim. Claro que te amo.» Cinco beijos. «Muito?» Seis beijos. «Muito.» Sete beijos. Ela dirigiu-se à porta. Desapareceu e reapareceu por metade, com a cabeça a espreitar por detrás da ombreira. «Adeus meu amor. Não demores…»
- Não… não demoro nada.
 
Despejou o conteúdo de outra garrafa de uísque no copo e rumou à janela. Acendeu um cigarro. Lá fora, o gato amarelo tinha companhia. Estava deitado, dissimulando as patas dianteiras por entre o pelo denso, e acompanhava os movimentos ligeiros de três novos companheiros que saltitavam no telhado da casa de ferramentas. O cigarro consumiu-se lento perante o espectáculo dos felinos. Fez um gesto brusco e os três gatos dispersaram. Somente o gato amarelo permaneceu firme.
A luz artificial do jardim iluminava os ramos torcidos da pereira velha e prolongava sombras escuras junto aos muros. Num impulso brusco abriu a porta e saiu. Sentia a brisa fresca afagar-lhe os braços, enquanto deambulava pela relva. Procurava atentar nos pormenores do jardim, mas sem querer, começou a reconhecer os passos tantas vezes repetidos. Estacou junto à casa de ferramentas, apoiando a mão direita na porta de madeira. Observou o gato de soslaio, ainda no muro, e, num movimento, retirou a chave de debaixo de um vaso que erguera. A porta abriu-se sem resistência, libertando um cheiro azedo de mofo e antiguidade. Procurou o interruptor, que libertou uma luz fraca e sombria. O pequeno compartimento pareceu-lhe congelado no tempo. O cortador de relva, agora mais ferrugento, as tesouras de podar a penderem na parede, a bancada grande de madeira, a caixa de ferramentas, os frascos de tintas alinhados em prateleiras toscas, embalagens de sementes, recipientes repletos de pregos desordenados…
À medida que os olhos se acostumaram às sombras e o nariz começou a suportar os cheiros, avançou alguns passos em direcção ao interior. Dirigiu-se à bancada e sentou-se, acendendo um cigarro. Apercebeu-se então, pela primeira vez, que a privação ao consumo regular de álcool nos últimos anos lhe reduzira drasticamente a resistência aos seus efeitos. O uísque começava a actuar. Sentia uma onda de calor espalhar-se pelo peito enquanto os primeiros sinais de uma neblina ténue lhe disfarçavam os contornos dos objectos. Deixou pender a cabeça contra a parede e recordou, demoradamente, os tempos passados no jardim. Primeiro nas tardes de futebol ou matraquilhos. Mais tarde em cigarros furtivos na casa de ferramentas ou beijos roubados debaixo das árvores.
O copo vazio e a recordação do maço de tabaco esquecido na mesa da sala cravaram-se entre as memórias, obrigando-o a regressar a casa. Pelo caminho, ainda espreitou o gato amarelo pelo canto do olho e resmungou um palavrão. Encheu o copo novamente, antes de se dirigir à pequena estante com não mais do que duas dezenas de livros. Desfilou o indicador de encontro às lombadas, parando à imagem de um velho e gasto exemplar de “A espuma dos dias”. Retirou-o com cuidado. Abriu a capa entre as duas mãos, soltando as folhas devagar até suster o movimento e retornar duas ou três páginas atrás. Abriu-o então com vigor, deixando descoberta uma fotografia de uma jovem mulher, com cabelo louro comprido e olhos claros e sorridentes apontados ao fotógrafo. Prendeu-a cuidadosamente entre o polegar e o indicador e pousou-a sobre a mesa, encostada a um velho jarro vazio. Cara a cara com a fotografia, continuou a beber o uísque que, cada vez mais, libertava os demónios do álcool.
Levantou-se em delicado equilíbrio e rebuscou com ansiedade os bolsos do casaco até achar o telemóvel. Deixou-se cair novamente no sofá e dirigiu a agitação para o aparelho numa desajeitada ginástica de dedos. A ansiedade estancou na atenção a um número. Cruzou o olhar com a rapariga da foto e observou o telemóvel. Despejou o resto de uísque num gole, levantou-se brusco e passou a mão no cabelo de farripas ruças. Pigarreou antes de colar o aparelho na orelha. Escutava o som repetitivo e ininterrupto de chamada. Uma… duas… três… quatro… cinco vezes… – deixou cair o braço junto ao corpo, num esboço de desistência, mas ergueu-o de novo com convicção reforçada – seis… sete… oito… nove vezes… «…Estou? – ouviu uma voz rouca e estremunhada de mulher – Estou?... Quem fala?...» Engoliu em seco, mas a voz faltou-lhe. «…Estou?... Estou?... Quem fala? – a voz soava incomodada.» Pensou no quanto seria fácil dizer-lhe o nome e esperar a reacção. «Estou?... » Dizer-lhe «Olá», dizer-lhe que tinha saudades… «Estou? Vou desligar! – a voz soava decidida – Que é que se passa querida? – escutou em fundo uma voz masculina – Quem é?» Desligou o telemóvel.
Encheu o copo e bebeu-o num trago. Arrumou o livro na estante e rumou de novo à janela. O gato permanecia no mesmo sítio. Num gesto, arremessou na direcção do animal o cinzeiro que terminou a viagem a meio do caminho. O gato pulou sobressaltado mas rapidamente readquiriu a postura. Nada a fazer. Apagou a luz do jardim e tornou para a sala.
No quarto, ela dormia profundamente, com as costas voltadas para o seu lado da cama. Deitou-se. Acariciou-lhe o corpo e comprimiu-a contra si, beijando-lhe o pescoço. Escutou-a resmungar qualquer coisa. «És o meu amor... – segredou-lhe ao ouvido – Sabes? És o meu amor.»
 
J.P. Limão

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1 comentário:
De Ulisses K. a 29 de Janeiro de 2008 às 12:49
Sempre gostei deste gato amarelo! Parabéns


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