Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007
Sexta-feira louca
Dezembro 07, 2007

Lembras-te por certo do Sam. O Sam era aquele tipo que, sem se destacar em nada em particular, imprimia em tudo o que fazia uma segurança fora do comum. Não sendo interessante era o que a rapaziada qualificava de “tipo com interesse”. Bem, mas isso foi na Era de Todas as Faculdades, ou seja, há muito, muito tempo. Entretanto o Sam foi-se apagando. Foi submergindo a vontade num daqueles empregos que se dizem stressantes, numa empresa carregada de stress. Nessas empresas eles fazem tudo para combater o stress. Coisas que nem lembram ao stress. É assim que eles vivem no topo, entrincheirados na sua moral comercial, em torres de cimento vedadas à gente vulgar – o público, como eles chamam a pessoas como eu e tu.

Soube desta história não pelo Sam mas por alguém que, tal como nós, conheceu o Sam faz muito tempo. Foi ele quem me a contou, assim como a história das outras personagens desta história que no fundo não é uma história, de tão corriqueira que é. Passa-se todos os dias, quer o Sam esteja a trabalhar ou tenha pedido para sair mais cedo, como foi o caso, naquele dia.
Quem visse o Sam caminhar pela rua naquela sexta ou noutra sexta-feira qualquer, veria apenas um nadinha mais além do desfilar confiante de um bom fato azul escuro corrompendo a multidão de fatiota barata e sonhos amarrotados. Os pais do Sam sempre fizeram questão de não olhar a despesas para que o Sam se tornasse “um rapaz apresentável” – sem dúvida mais interessante do que ser “um tipo interessante” ou “com interesse” – e com isso garantir que, numa sexta-feira ou num outro dia do futuro, o Sam não fosse “só mais um”, mas um dos socialmente eleitos, aptos e bem sucedidos.
Tinha chegado a um bom nível, o nosso Samuel - o Sam. Um bom emprego, um estatuto vincado num fato de bom corte e um sorriso branquinho, como o colarinho da camisa italiana. Os olhos brilhavam, acompanhando o ideal de respeitabilidade que trazia ao pulso na forma dum relógio maciço – daqueles que sabem distinguir compromissos e a forma de os contornar – e, é certo, na inevitável aliança.
Tu conheces a mulher do Sam. Já a viste, de certeza. Não é só uma mulher, é  uma brasa daquelas. Uma beleza em movimento, cativante, presa apenas da ideia exagerada que tem de sim mesma e que não deixa de ser verdadeira, de tão democrática – corresponde exactamente à nossa, a da grande massa para a qual a mulher do Sam é uma miragem inacessível, apenas disponível em sonhos que não nos são permitidos sonhar. Sabes bem do que falo.
Seria consensual a opinião dos membros do clube de viventes da Era de Todas as Faculdades: só mesmo o Sam para apanhar um avião daqueles. As saudosas noites de farra em que tu e eu gastávamos a mesada em bebida barata até altas horas, o Sam passava-as nos clubes onde param as meninas bem comportadas. Sim, porque a mulher do Sam vem da alta. E foi na alta que o Sam se estabeleceu. Na alta-roda, com um apartamento na alta da cidade.
O Sam tinha tudo para vencer e venceu com tudo o que tinha. Além disso, quase ficou com o que não queria. Por exemplo, a Rita. Essa não conheces de certeza. Mas conheces o género. Contaram-me que a Rita fez a vida negra ao Sam durante uns tempos. Pois, a velha história. Não percebeu que aqueles encontros com o Sam não passavam de um devaneio provisório, sem consequências demoradas. O Sam andava um bocado, digamos, fora de si, naquela altura. Quando o bébé nasceu, toda a gente vaticinou para a Marta – a mulher do Sam – o final trágico dos seus encantos. Perderia com toda a certeza a definição nas formas e cederia a um destino flácido e desinteressante, o Mundo e ela girando em volta da bebé. Isso torná-la-ia inevitavelmente menos apta aos olhos do Sagrado Matrimónio com o Sam. Durante uns tempos até eu acreditei que isso fosse possível – a fatalidade é convicta, até mesmo para os mais belos e endinheirados. Mas não. A beleza móvel voltou a desfilar passados seis meses. Tão colorida e radiante, como se nem ao de leve uma pena de colibri tivesse ousado tocá-la. Isso não apagou os quase 10 meses que durou a relação do marido com a Rita do escritório. Sabes como é o Sam, sempre ligado às coisas do coração. Bem, mas isso já lá vai. A Rita passou à história, perdida em comentários maldosos no intervalo para o café. Sabes como eles se divertem nesses empregos de stress.
O Sam nesse dia estava decidido a relaxar de uma semana desgastante e, como Sams e não-Sams fazem no horário de expediente – e na rara centelha de liberdade que as suas franjas permitem – dirigiu-se aquele jardim que fica no meio da cidade e que tu e eu bem conhecemos – costumávamos passar por lá quando não arranjávamos boleia e tínhamos de ir a pé porque o metro estava fechado. Naquele jardim, naquele dia, o Sam sentou-se num dos bancos e esperou.
Lá dentro, isto é, no velho apartamento que fica em frente ao jardim onde os velhos jogam às cartas e os miúdos se põem em bicos de pés para sorver do bebedouro onde alguém mijou na noite anterior, o Sam conheceu por ordem de entrada em cena nesta história e numa sala forrada a cortinas carmim: a Diana, a Xana, a Sandra, a Sofia e a Lara. As jovens belezas vulgares na sua inconsciência, deram uma volta e o Sam ficou a vê-las desaparecer pela mesma porta onde tinham entrado, eclipsando-se num meneio de maus costumes e lingerie. Depois o Sam ficou em silêncio e uma mulher mais velha de lábios berrantes interrompeu: “então querido, já escolheste?”. O Sam escolheu. Nem meia hora depois estava de volta aquele jardim, envolto numa nuvem preguiçosa, pairando sobre um céu de um azul ingénuo que abria as hostilidades de fim de tarde na grande cidade. De volta ao burburinho mecânico do escritório social, um Sam mais bem-disposto, de olho reluzente e sorriso enigmático, tratou de uns assuntos que precisavam ser tratados antes de segunda-feira e deu por finda mais uma semana produtiva.
O apartamento situado no 1º andar do prédio que olhava há quarenta anos para o mesmo jardim triste e desabitado, dividia-se em três quartos, uma sala, uma cozinha e duas pequenas casas de banho. Cada quarto possuía uma cama e lençóis, uma mesinha de cabeceira e um espelho gasto procurando em vão as imagens embaciadas dos seus ocupantes ocasionais. Apesar do ambiente quezilento que pairava naquela casa, que se refugiava da claridade do Mundo sério em cortinas carmim que raramente se abriam, a Lara e a Sofia eram as últimas raparigas que ainda conversavam. Todas as outras se odiavam umas às outras, ora porque os melhores clientes escolhiam sempre a Diana ora porque a Xana tinha ameaçado a Sandra com um copo de água. Imagine-se, um copo de água! Mas o copo estava partido e a Xana queria mesmo espetá-lo no olho da Sandra e tudo por causa de um mulatinho sem importância. A verdade é que a Xana estava apaixonada e não concebia a ideia de que o mulatinho apenas se queria divertir. A rapariga sonhava já em casar e abrir um pequeno restaurante, porque o que a Xana gostava mesmo era de fazer mini-pratos.
Naquela sexta-feira preguiçosa tudo estava calmo. Um tipo alto e bem vestido – um habitual com o hábito das sextas-feiras – tinha sido o primeiro e único cliente da tarde. Uma quente tarde de Julho. Ou seria Agosto? Talvez estivesse para vir o primeiro fim-de-semana de Agosto e todos os tipos casados fossem de férias com as suas caras-metade – as legítimas e as outras – enfiados em espaçosos volumes com rodas, embalados em quinta pelas estradas de planície. Por isso, talvez essa sexta-feira ameaçasse prolongar pela noite fora o movimento dolente das meninas chupando rebuçados de mentol, cruzando e descruzando as pernas pela batuta dos intervalos publicitários. Talvez um ou dois universitários com dinheiro para estourar perturbassem a placidez daquela sala em silêncio. Nada de mais.
Sofia não se lembrava se era Julho ou Agosto, mas Lara concordava que era sexta-feira pois faltavam apenas umas horas para o fim-de-semana. Estava cheia de calor. Era a única que já tinha trabalhado nesse dia. Estava preocupada porque a dada altura tinha tido a sensação de que o tipo se tinha vindo dentro dela. Mas as mulheres sabem destas coisas e a Sofia apaziguava-lhe os receios. Era uma sensação comum, o risco da profissão. Talvez tivesse imaginado. Afinal estava tanto calor. As pessoas nem pensam com este calor. Apesar do incidente, a Lara não podia deixar de estar contente. Finalmente, o namorado tinha decidido mudar-se para sua casa. Toda a vida a Lara tinha tido muito azar. Uma filha de 8 anos não ajudava a manter casos. Mas o Joca era diferente. Era um tipo às direitas, trabalhador, verdadeiro e a Lara tinha a certeza das suas intenções. ‘Que é isso menina? Nem pensar. Ele julga que eu trabalho numa dentista’. A Diana metia-se na conversa. Estava entediada porque as outras viam uma novela e a Diana detestava novelas. Mas estava tanto calor que não se conseguia pensar, nem para ver uma novela.
O Joca foi buscar a menina. Célia, era o nome da menina. A Célia até gostava que o Joca a fosse buscar. Estava farta que os coleguinhas lhe perguntassem pelo pai. Por isso a Célia saltitava até aos braços de Joca que a agarrava com muito amor. Depois iam ambos de mão dada e ele sentava a menina no banco da frente, se ela se portasse bem. O Joca tinha um carro velho que concertara mas cujo dono nunca reclamara de volta. O carro tinha uns cintos de segurança antigos e antipáticos que custavam muito a encaixar. Sempre que o mecânico ia buscar a menina era um problema para colocar o cinto e ajustá-lo bem no peito da menina, não fosse o caso do Joca ter que fazer uma travagem brusca e a menina bater com a cabecita no tablier. A menina tinha uma carinha adorável e uns lábios bem vermelhinhos. Quando crescesse ia ser uma “top-model”. O Joca não se cansava de lhe dizer isso, sempre que estavam sós, no quarto, enquanto a mamã não chegava. Depois ele ia só ali abaixo ao café comprar tabaco, mas demorava-se sempre um bocadinho mais do que dizia, deixando a menina sozinha e confusa.
O Joca chegava ao café e ficava na conversa com o sr. António e os outros homens dispersos pelo balcão, ou esquecidos em mesas saudosistas. Falavam sobre futebol e sobretudo nesse dia falaram das malditas obras que a câmara estava a fazer, mesmo em frente ao parque infantil. ‘Coitados dos miúdos que já não podem brincar à vontade sem o risco de lhes cair um andaime em cima’, dizia o Joca. ‘A polícia devia era fechar o parque ou mudá-lo provisoriamente’. O sr. António não percebia muito bem o interesse do Joca no parque infantil, mas não deixava de dar acaloradamente a sua opinião sobre esse e outros assuntos do bairro, como a vida do ‘larilas’ do prédio em frente. O senhor António, sabia bem em que vidas andava ‘aquilo’ metido, porque o senhor António já o tinha topado a sair de casa todo pintado lá pela onze, quando fechava o café. Parecia uma ‘puta de ombros largos’. Da primeira vez que o viu nem o reconheceu mas o tipo fez questão de o cumprimentar. A lata do tipo. Uma tristeza ambulante.
Nessa noite, como nas outras noites, uma mulher muito alta e muito pintada mergulhou nas sombras da velha e estreita rua do café do sr. António, em direcção à piscina de luzes amareladas que submergia a parte baixa da cidade. Ali encontrou outras mulheres muito altas e corpulentas que brilhavam como faróis na noite baça. Ficaram conversando junto à paragem do autocarro, como se esperassem a passagem de um deles. No entanto, como tu sabes, naquela zona os autocarros não passam aquela hora. Isso não faz daquela parte da cidade uma zona deserta. Pelo contrário, é a partir daquela hora que passa a ter mais movimento.
Um carro negro como a noite escura, parou num sinal vermelho.  Lá dentro, ia uma mulher muito bonita, conduzida por um homem de feições vagamente familiares. O homem olhou para as mulheres altas que esperavam na paragem. Franziu o sobrolho e depois sorriu, trocando um comentário trocista com a beleza pura sentada a seu lado, demasiado ansiosa para rir de volta. Nunca se tinha atrasado tanto. ‘O Sam’, pensava. E o vermelho desfez-se num laranja intermitente e a beleza desfez o pensamento e o carro arrancou, levando os seus ocupantes pelo centro da cidade, rumo às suas vidas premeditadas.
Era quase meia-noite. Os estudantes regressavam aos seus quartos de adolescente esperando impacientes um Domingo em família, demasiado longínquo para ser tolerado. Os que ficavam na cidade divertiam-se pelos bares, abordando as raparigas mais bonitas ou aquelas que lhes garantiam mais possibilidades futuras. Nas zonas comerciais, os escritórios eram limpos por mulheres africanas de grande porte e os grandes negócios repousavam em cima da mesa, à espera de serem fechados segunda-feira de manhã. Pela grande cintura de prédios envolvendo a metrópole que agora se divertia com vinho e cerveja e jantares demorados entre amigos, luzes amarelas e brancas desafiavam a escuridão do céu dos dormitórios, acendendo e apagando, para revelar uma insónia, um filme que demorava a acabar, um copo de leite, uma peça de roupa por estender numa janela quadrada, como tantas outras. Depois da primeira cintura de asteróides suburbanos, há uma segunda e uma terceira. O grau de sofisticação da loucura fugaz que celebra o fim da semana, rarefaz-se à medida que os néons se afastam e se penetra no interior, deserto, insuficientemente ambicioso para a vontade de celebrar. De volta à grande metrópole, os seus bravos conquistadores perpetuavam agora um desejo eufórico de prolongar pela eternidade aquelas quarenta e oito horas que separavam uma sexta-feira louca de uma nova semana em que tudo voltaria à normalidade.
Esta história foi-me contada por aquele que tudo vê mas que ninguém vê. Que mais me contou quem tudo sabe sobre aquela sexta-feira? Bem, aquele que vê melhor que todos nós contou-me que viu o homem de feições familiares regressar à paragem de autocarro, chamar uma das mulheres altas e desaparecer com ela por becos e ruelas de segunda. Viu também um pobre mecânico de automóveis enxaguar as lágrimas junto à sua namorada, ainda sem saber porque chorara. Olhou para uma mulher rejeitada rejeitando o homem que a amava, não conseguindo perdoar quem não a quis. Ouviu o sono de beleza de uma menina demasiado inocente para perceber o feio coração dos adultos e... espera, que é feito do Sam? O nosso Sam adormeceu no sofá que nem um anjo, ao lado da sua pequena princesa. Foi acordado pelo belo sorriso de Marta, que naquela sexta chegava um pouquinho atrasada. A família deitou-se na grande cama de madeira maciça e lençóis de seda e adormeceu, quieta, a salvo da grande cidade que matutava lá fora na sua própria indefinição.
 

Hugo V. Costa



publicado por Instantes Decisivos | link do post | comentar

1 comentário:
De João a 30 de Janeiro de 2008 às 14:23
excelente narrativa. em mosaico, não linear, e num delicado compromisso com a palavra!!


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