Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008
Bolha de ar
Janeiro 04, 2008

"Les charmes de l’horreur n’enivrent que les forts!"

C. Baudelaire, Les fleurs du mal
 
Vergastou-a até ao limite das suas forças. Os seus olhos enraivecidos esforçavam-se por focar o embaciado corpo a fustigar. A sua racionalidade estava reduzida a uma única palavra, que lhe latejava nas frontes: “puta!”. Não conseguia melhor, mas também não lhe passava pela cabeça tentar. Depois do último gemido, ainda a açoitou mais algumas vezes, como se lhe explicasse, pela via do chicote, que a sua dor era maior.
Exausto, sentou-se na sua poltrona, não sem primeiro se servir de uma generosa porção de whisky. Ao mesmo tempo que tragava um longo gole, contemplou o resultado imediato da cena que havia protagonizado: um corpo fêmeo inanimado, um banho de sangue, um auto-domínio violado. Condenou-se por ter deixado as coisas chegarem àquele ponto. Soubera sempre que assim haveriam de terminar. E os miúdos. Não pensara neles antes de a sovar e, agora, com que cara os enfrentaria? Como fazê-los entender que se havia descontrolado irremediavelmente, mais a mais por motivos aos quais eram alheios? Mesmo para ele – que se considerava liberal – seria a traição motivo para um acto tão violento, com tanto sentido de direito de propriedade? Sentia-se diminuído e amedrontado. Aquele erro persegui-lo-ia para toda a vida. Só a ruína de todo o mundo, dos seus seres, dos seus objectos, o poderia salvar daquela situação. Só se nada permanecesse intacto é que aquele cenário não seria considerado de destruição. Fechou os olhos e mergulhou num mar ao redor de uma ilha longínqua, segurando uma lanterna que iluminava uma linda e corpulenta lesma do mar. As ascídias, de superfície cerosa, escorriam rocha abaixo como velas a derreter. O barómetro indicador de oxigénio garantia mais meia hora de mergulho. Afastando-se para obter uma visão periférica do local, observou como os milhões de anos de erosão rendilhavam a ilha com arcos esplendorosos, túneis obscuros e cavernas misteriosas. A catorze metros de profundidade, como que por instinto, meteu-se adentro de um túnel, e subiu até encontrar uma bolha de ar do tamanho aproximado de uma locomotiva. Retirou o regulador da boca e observou a incoerência de poder respirar, independente da garrafa, cinco metros abaixo da superfície. O ar subterrâneo era húmido e salgado, e o silêncio absurdo. A luz da lanterna era exígua para tão ampla escuridão. Quis subir para cima duns rochedos mas resvalou, cortando-se na face, perto da vista direita. O sangue corria-lhe abundantemente pela face abaixo, misturando-se na água. Lembrou-se que aquele mar estava repleto de tubarões e não desistiu. Subiu para um pináculo e quedou-se a escutar uma música interior, aparentemente sem melodia, sensibilidade, instrumentos, poesia ou harmonia, música sem princípio, meio ou fim, música que nem parecia ser música. Mas, ali, era livre de escutar o que lhe apetecesse, ao contrário da vida que tinha vivido até então, onde tudo o que não queria ou não gostava o oprimia, tomando-lhe atenção a contragosto. A posição desconfortável em que se encontrava fê-lo sentir vontade de voltar ao mar. Mas teve medo. Sem qualquer evidência ou, sequer, indício plausível, assumiu que tubarões brancos estariam presentes, esfomeados, a esperá-lo à saída do túnel. O terror apoderou-se dele pela via de um delírio persecutório. Explorou, com a ajuda da lanterna, as rochas contíguas e avistou uma com irregularidades menos protuberantes, onde se instalou. A comodidade era, de facto, maior, havia mais espaço e o rochedo era mais plano. Pousou o colete e acomodou-se, encolhido e aterrorizado com a ideia de servir de refeição aos predadores. Devido, talvez, à escassez de oxigénio, começou a sentir-se deveras cansado, sonolento. Acabou por adormecer.   Acordou aos gritos, sobressaltado como molas de aço de um sistema mecânico em colapso. Escorria suor abundantemente, tanto a almofada como a cama estavam encharcadas. Faltavam três minutos para as sete, hora a que tocava o despertador. Demorou mais de vinte minutos a recompor-se, facto que lhe valeu mais um atraso no emprego. Enquanto tomava duche, pensou que talvez tivesse sido a melhor opção nunca ter constituído família.
 
Henrique de Lemos


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4 comentários:
De Ulisses K. a 29 de Janeiro de 2008 às 14:49
Escrita cristalina. Gosto muito.


De Luckyloser a 30 de Janeiro de 2008 às 22:44
De uma forma simples, a vida de todos nós cheia de sonhos e pesadelos... venha o próximo :)


De Mrs. Reis a 31 de Janeiro de 2008 às 00:31
bom ritmo, pausas pertinentes.
"imagens" bastante cinematográficas.
nas passagens "trágico-relief-trágico" parece-me que a segunda passagem está mais harmoniosa.

no primeiro momento é bastante agressivo, com um ritmo bastante rápido, quase sôfrego e de repente qd estamos a ler.. perdemos o fio... em que voltamos de um ambiente vermelho ocre e negro, para um ambiente azul, indigo e celeste, e depois volta ao " trágico" mas aí com tons de purpura e rosa...

well done


De cândida a 31 de Março de 2008 às 15:27
uau, k comentários. vou ter de ler com atenxão o conto.


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