Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008
Marcelino
Janeiro 25, 2008
Há sítios onde o Tempo não existe. Os seres flutuam, em estado inconsciente, pois estão a dormir. Quando acordam às sete da manhã sentem inevitavelmente o peso enorme das têmporas a puxá-los outra vez para o reino mágico onde tudo é possível e nada tem limites.
Marcelino era um menino grande. Quis crescer a todo o custo para ser adulto e poder vestir fatos azuis às riscas como o pai. Exigiu um carro descapotável para descer a avenida e as meninas lhe acenarem com os chapéus ao sol. Gostava de se poder sentar na esplanada a ler o jornal sem ser incomodado pelos restantes seres minúsculos. Queria açambarcar tudo, e se possível conquistar o mundo. Era pedir muito? Não tinha irmãos, só restava a memória de um primo atarracado, o Josué, a quem o Marcelino tratou de infernizar a sua vida em criança, até ao ponto em que este fingia estar doente com cólicas quando se pronunciava a intenção de visitar a mansão de família do primo Marcelino.

É um nome engraçado, Marcelino. Foi baptizado assim porque o seu pai adorava ler a banda desenhada da Mafaldinha. Nesta história Marcelino era filho dum merceeiro, e perdia-se no seu tempo livre a fazer contas e a poupar os tostões que o poderiam levar ao poder. Nada mais apropriado do que associar este nome à figura deste semblante real, que também era gordinho e atarracado, como o seu homónimo do mundo dos quadradinhos.
Um dia Marcelino estava a almoçar uma bruta e farta refeição, quando viu no jornal que ia abrir um supermercado novo na vila, o "Antrax". Vila esta que era composta apenas pela sua mansão familiar e as restantes casas em redor dos criaditos, servos imprescindíveis à ordem e manutenção do seu "pequeno reino familiar".
Voltando ao supermercado, de facto, Marcelino carregava na herança do seu nome a adoração por supermercados. Delirava com os produtos todos ali plantados e colocados à sua disposição, como que a chamarem-no através dos sussuros das cores variadas, dos cheiros, das embalagens e distintos paladares. A variedade x, com o sabor de limão e aspecto de torrão amarelo era o seu bolo preferido. O sumo verde, com reminiscências de azeitona grande verde era utilizado para pregar partidas aos convidados menos importantes. E ficava encantado com os sugos, as massas e os lollipots; as bananas, os chocolates e as batatadas fritas; os chouriços, os queijos e os iogurtes. Marcelino adorava este mundo mágico e desta forma, deu um murro na mesa e decidiu porque decidiu e porque era acima de tudo uma pessoa (ou uma criança?) decidida, que se iria tornar o chefe destes supermercados.
O pai rapidamente tratou de tudo e expulsou possíveis concorrentes à custa de manobráveis e apelativos cheques subornados. Em todas as páginas dos jornais da terra e arredores, surgiu em letras gordas: "Deus na Terra e Marcelino ao poder dos supermercados Antrax"; "Salvé a vinda do novo Rei – Marcelino dono do Antrax".
Este menino grande logo tratou de arranjar um exército de funcionários formiguinhas. Rápidos, mecânicos, precisos, velozes como o vento, de preferência imunes ao cansaço e adeptos de respostas breves e concisas. Tira a lata, carrega produto, chega encomenda e arregaça as mangas. Puxa o elevador, atende o telefone, corre para ajudar a velhinha prostrada com os sacos a rolarem pelo chão, exibe um sorriso menos amarelo e ajeita o cabelo. Marcelino repetia constantemente "Dê corda aos sapatinhos e trabalhe".
E passava assim a vida sentado do alto da sua cadeira giratória, a olhar para as formiguinhas através do vidro garrafão do seu open space. De vez em quando, puxava do megafone e gritava "Formiguinha número trezentos e quarenta e sete, dê corda aos seus sapatinhos!". Às vezes acontecia que uma das formiguinhas ficava exausta e desmaiava. Logo entrava em cena o gestor de pessoal com a maca, pronta a levar o operário para descansar um minuto e cinquenta e nove segundos, actualizados pelo meridiano de Greenwich. A sua maior ambição era assim conseguir transformar este exército de formiguinhas em resistentes "Marcelinos", dotados de ambição e paixão pelos tostões.
Marcelino dava-se assim ao luxo de passar a vida lentamente ao ritmo dos pacotes de batatas fritas devorados um atrás do outro, sem parar. Até que um dia adormeceu com a cara enfiada no pacote. E teve um sonho lindo, com uma menina linda de morrer, que voava e tudo, contam que era uma fada. Tal qual filme de cinema, apaixonou-se à primeira vista. O único inconveniente sublinha-se, esta era uma criação virtual, uma boneca desenvolvida pelo seu próprio subconsciente. Mas como o amor tem muita força e gere bem obstáculos, à conta dela tornou-se preguiçoso e esqueceu os produtos, o lucro, os concorrentes, a comida, os horários... Emagreceu e enegreceu. Mirrou. As formiguinhas essas cantavam a liberdade e brincavam alegremente, punham os pés em cima das secretárias e andavam enamoradas de novo pela vida.
O único objectivo humanamente inconcretizável de Marcelino era agora dormir incessantemente e entrar no reino dos sonhos para se encontrar com a sua diva. Divinamente inspirado, há quem diga que quando adormecia com a cara na secretária estava sempre sempre com um sorriso idiota nos lábios, especialmente na noite virtual em que acabou mesmo por casar-se com a sua fada. Naturalmente começou a querer passar mais tempo do lado de lá do que connosco.
Finalmente, após alguns anos e um império de supermercados destruído e completamente arruinado, embarcou de vez no barquinho para uma viagem sem retorno até à outra margem desconhecida. Conseguiu por fim materializar o seu sonho e viver para sempre ao lado da sua amada, que por coincidência ou não, gostava muito de bombinhas de chocolate ao pequeno-almoço, só da marca branca do supermercado mais barato lá do "bairro".


Inês Maria

publicado por Instantes Decisivos | link do post | comentar

1 comentário:
De Ulisses K. a 29 de Janeiro de 2008 às 14:55
"dê corda aos seus sapatinhos" é uma bela frase. Sem querer troquei as linhas e li "apaixonou-se à primeira vista ...pelo seu próprio subconsciente", o que não deixa de ter piada.


Comentar post