Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008
Nuvem fortuita
Janeiro 31, 2008
O voo estava atrasado. Demasiado atrasado para uma viagem cujo destino era o resto da vida. Mas a culpa não habitava a cabeça de Heitor. Essa ainda não parara desde o despertar naquela madrugada, algures num hotel de duas estrelas, nos arredores mais rasteiros de Madrid. Não parara desde o momento em que afastou o cabelo, ruivo sangue, do rosto da jovem que dormira a seu lado e esta o encarou, meio surpresa meio sonolenta, e lhe pediu um minuto. Heitor não o tinha, mas deu-o na mesma. Deu até mais. Haverá algo mais fácil de dar do que algo que não é nunca nosso? Foi em correria que apanharam um táxi para o  aeroporto. Na sua mente ressacada, tudo girava simultaneamente com as jantes do velho Mercedes que os transportava. Tudo corria ao segundo. Os milésimos bem definidos apesar da visão turva ainda. O passo apressado, raio X adentro, bizarro escrutínio fronteiriço, que dizem tudo ver, mas que não vai além do esqueleto. Como eram parecidos os dois, de resto, no monitor do aeroporto.
Já sentados, os corpos depositados e os ponteiros suspensos. Aquilo não era tempo. Era o seu contrário. Cintos de segurança ao nível das ancas até que a luz se apagasse. E agora? O agora não passa de uma antecâmara do futuro. E este tardava. Fazia duas horas que o comandante do voo TAP 743, com destino a Lisboa, anunciara um ligeiro atraso de quinze minutos em várias línguas. Todas elas indecifráveis. Congestionamento de tráfego numa pista deserta. Quinze minutos, ele dissera. Isso juraria Heitor ter percebido. Metade do tempo que demoraria a viagem. E agora? Agora o atraso mais parecia ser-lhe destinado. Quanto mais pensava no regresso, mais o voo atrasava. Perder tempo ali sentado era como ganhá-lo ao levantar-se. Tudo o que é fortuito dispensa a espera. E tudo o que se espera não passa de algo fortuito. E dispensável. E agora? Agora esperava-se ainda. Haveria toalhetes com aroma a flores silvestres? Canapés de presunto com queijo e miniaturas de pastéis de nata? Café? Chá? Rebuçados de mentol? Bolinhas de neve? Haveria amendoins com piri-piri? Sem sal? Com extra-sal? As revistas da semana? Os jornais do dia? Sem tempo? Com extra-tempo?
A seu lado, dois olhos curiosos e ligeiramente azuis na sua timidez, cumpriam a sua função e olhavam-no. Não faltaria muito para que falassem. E falaram. E agora? - poderiam ter dito. Mas não disseram.
- Em que pensas? - foi o que perguntaram por perguntar, traindo-se...
- Em nada... foi o que responderam os de Heitor por responder, ocupados que estavam a ver, pela janela meio encoberta, o gelo que caía na pista.
Pensou que devia sorrir para cumprir o esperado, mas conteve-se. Havia qualquer coisa de equívoco na retina do olhar de ambos. E na língua que não partilhavam mais do que o suficiente para calar alguns substantivos a propósito e gritar alguns verbos completamente fora de contexto.
- O que estás lendo? - quis ela saber do livro que segurava. As mãos pequenas e suadas e o castelhano insuficiente para ir além da brevidade do título. "Enquanto elas dormem", tradução portuguesa do madrileno Javier Marías. Haveria ali tema de conversa. Mas Heitor apenas pensou nisso, enquanto sorria, sem saber que sorria. Cortesia efémera. Fortuita. Que nada espera. E agora?
Súbita não seria, mas antes tardiamente, o piloto beijou o intercomunicador para dizer que a pista estava livre. Partiriam imediatamente. Imediatamente, ele dissera. Heitor olhou em frente e pareceu-lhe ver outros aviões na pista. Como se nada ou ninguém conseguisse voar a solo. Ou partir sem ter ninguém à espera.
Não demorou sequer uns falíveis quinze minutos até ambos serem apertados contra os bancos e sentirem uma ténue comunhão. Uma partilha breve daquilo que não está nas nossas mãos. Mas que não deixamos de as colocar nas de alguém em quem também não acreditamos. E numa golfada de respiração, num sopro mal medido de tempo, o regresso começou a remeter o passado para o seu tamanho real. Para o tamanho de tudo o que minguava, minguava lá em baixo. Num todo que era já um completo nada. E agora? Agora Heitor contemplava a vista gelada, lá fora, enquanto ela dormia. Enquanto elas dormiam, os sonhos nunca seriam os dele. O céu estava azul. Demasiado azul para o resto dos dias. A viagem e o azul, esses, demorariam um fogacho. Fortuitos no seu desvanecimento, na sua subida para o branco. Tudo era bonito e opaco. Mas pairava no ar um vazio que as nuvens não preenchiam.


Jorge Flores





publicado por Instantes Decisivos | link do post | comentar

1 comentário:
De Ulisses K. a 20 de Fevereiro de 2008 às 12:04
Gosto muito do teu estilo e das imagens desta e de outras coisas que li. "apertados contra os bancos e sentirem uma ténue comunhão" é isso mesmo.


Comentar post