Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008
Mercado municipal
Fevereiro 15, 2008

No letreiro vermelho podia ler-se “ESPECIARIAS DO INFERNO”, e mais abaixo, em letras pequenas também desenhadas: “orgânicas”. Uma banca vitoriana de madeira antiga com cornucópias esculpidas e portinholas de vidro amarelo. Pendurados, sacos de búzios creme. Espalhados pela mesa, saquinhos e saquetas com pós verdes e castanhos e verdes com bulas agrafadas. “Mau olhado”, “Queira quem não me quer”, “Marido infiel”, “Bomba do Amor de Cacau”; e depois: “costas”, “rins”, “bexiga”. Uma hera de folhas verdes de bordas esbranquiçadas compunha o ramalhete e coroava a moldura viva.

Ficou parado a olhar durante algum tempo. Lá de dentro, do outro lado, saíram uns olhos azuis interessados.

- Amor eterno, querido? - disseram os cabelos louros, muito longos e que acabavam nuns tímidos caracóis.

- Desculpe?

- Amor eterno? - repetiram os olhos de um azul que o céu nunca vira.

Demorou algum tempo a pensar na resposta. O tempo suficiente para ver nascer nela um sorriso maternal. Um calor terno. Era estúpido mas a verdade é que não sabia o que dizer. Estava ali feito parvo, com uma nota na mão, sem falar. Só conseguia olhar para a mais bela rapariga que alguma vez tinha visto. Sentiu uma breve vertigem. Tentou recompor-se, apertando a nota com força.

Mirou-o de alto abaixo. Depois viu qualquer coisa e a expressão mudou para um ar sério, quase piedoso.

- Talvez problemas com a mulher... Tenho aquilo de que precisas, querido.

Desapareceu por breves instantes voltando com um pequeno pote de vidro que outrora deveria ter contido doce de amora.

- Aqui está... bálsamo de Gilead, directamente das arábias. Garantido para recuperar um coração destroçado.

Estendeu-lhe o frasco.

- Dez - disse a rapariga, ainda com o boião de vidro enlaçado pelos seus dedos longos.

Sem pestanejar, o rapaz encostou a bicicleta, entregou a nota e guardou o frasco na mochila.

- Obrigado - disse ele, procurando de novo aquecer-se no mesmo calor de há pouco. Tentando cruzar, por uma outra vez, os seus com aqueles olhos azuis que o tinham cativado. Já lá não estavam. Apenas um azul pálido, igual a tantos outros tons azulados.

Agarrou na bicicleta e desapareceu no meio da multidão.

- Amor eterno? - ainda ouviu num sumido atrás de si.

Uma fresca brisa aconchegava a azáfama matinal no velho mercado. Pela sombra suportada por pilares de ferro verde, caminhavam mulheres puxando saquinhos de rodas de tecido xadrez. Cheirava a café, sabia a pão e bolo de mel. Banca-sim-banca-não, o perfume dos morangos insinuava-se nos pescoços sedosos das passantes, em geral jovens de olhar mais frio que a manhã.

 

Hugo V. Costa



publicado por Instantes Decisivos | link do post | comentar