Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008
Obsessão pela vida
Fevereiro 21, 2008
    Vivia uma obsessão pela própria vida e assim expressava o seu horror. A ânsia de tudo era cal que lhe abrasava os sentidos. Pasmava de medo quando tomava consciência de que os seus globos oculares se reviravam de felicidade: encantava-a sobretudo o hediondo e o absurdo.
     À luz da lâmpada fosca, via-se inalando vapores fétidos no centro de uma sala elíptica, matizada doentiamente: tecto verde-bílis, côncavas paredes roxas, cortinas marrom e um escarlate sanguíneo ensopando papéis espalhados pelo chão.
     Corria à procura de um recanto inexistente, retomava o fôlego e corria de novo, ávida, tenaz e nunca cansada. Contou-mo ela: fugia de si mesma, assustada porque atraída pelas caras deformadas e membros esfacelados que complementavam aquele repugnante pictórico.
    Jamais se equilibrou, jamais viveu uma hora que fosse em total harmonia, jamais intuiu que o seu mundo abarcava todo o mundo, jamais compreendeu que as leis universais são irrevogáveis.


Henrique de Lemos

publicado por Instantes Decisivos | link do post | comentar

1 comentário:
De Cristina M a 23 de Fevereiro de 2008 às 00:58
Escrita de riqueza verbal, plena de expressividade, onde a teia semântica da narrativa envolve o receptor/leitor, com o lamento final de não haver mais texto ("exigência" absurda! ...). Está lá tudo, mesmo em poucas palavras.
Continua!
Cristina M


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