Segunda-feira, 10 de Março de 2008
A derradeira história do Homem-Planta
Março 10, 2008
A porta do roupeiro entreaberta deixava espreitar o interior de camisas gastas de tons neutros entre outras peças igualmente velhas e usadas que variavam nas tonalidades de azul-escuro, castanho ou cinzento. Às vezes preto e novamente cinzento ou castanho. No espelho interior da porta, manchado pelo tempo e humidade, reflectia-se um cenário quase monocromático de peças velhas e mal cuidadas de onde destoavam apenas as cores vivas de um aparente uniforme verde e amarelo pendurado num velho cabide.
Encostada à parede, a cama desfeita de lençóis encardidos e mantas sobrepostas de eras passadas transmitia ao quarto um cenário de desarrumação que se prolongava nos vários copos esquecidos sobre a mesa-de-cabeceira, lenços de papel sujos e amarrotados caídos no chão, peças de roupa abandonada sobre uma velha cadeira de madeira e sem brilho, e no bacio de plástico azul com manchas amareladas que espreitava aos pés da cama.
A casa era velha. Na pequena divisão da entrada, acumulavam-se caixas de papelão cheias e objectos inúteis amontoados, por debaixo de casacos grossos de cores escuras, pendurados num cabide de parede. Pratos, panelas, frigideiras e talheres, com restos de comida, dividiam a desordem de uma pequena bancada de mármore e uma boa área da mesa da cozinha. Batatas mirradas e cebolas moles amontoavam-se em caixas de plástico ou papelão, a par dos sacos de plástico de cores berrantes e amarrotadas. Ao lado do fogão de bicos tisnados e superfície engordurada, o velho frigorífico insistia num zumbido monocórdico e prolongado, entrecortado de estalos regulares.
Na sala, sentado no pequeno sofá às riscas castanhas do canto junto à janela, o homem afagava a barriga flácida e proeminente. Rosto descaído com duas rugas vincadas dos lados da boca, nariz vermelho e esponjoso, e olhos fundos e vazios. O cabelo é branco e ralo a deixar ver uma testa demasiado grande. Tem os braços grossos mas moles.
A divisão estava na penumbra com os estores descaídos a meia janela a deixarem entrar uma luz tímida de Outono. Um último rectângulo estreito de luz fugidia desenhava-se aos seus pés. No resto, a mesma desordem monótona de lixo e objectos inúteis espalhava-se sobre o sofá grande, um cadeirão velho, a mesa da sala, e pelos cantos de chão encostados às paredes, enquanto a televisão fora de época aguardava, paciente, em cima da mesinha, o horário da noite para se tornar o centro das atenções.
O homem contemplou com indiferença toda a extensão do cenário desolador antes de se levantar com dificuldade. Os sessenta anos pesavam-lhe nos ossos. Bebeu o que restava do vinho que estava num copo ao lado do sofá e caminhou vagarosamente para o quarto. Espreguiçou-se longamente antes de voltar a acariciar o ventre com as duas mãos. A porta entreaberta do roupeiro chamou-lhe a atenção. Observou o interior com desinteresse e deitou uma olhadela ao espelho. Voltou de novo a atenção para as roupas e, subitamente, algo lhe chamou a atenção. Com cuidado, retirou o cabide de onde pendia o traje verde e amarelo de aspecto invulgar. Ficou a contemplá-lo à sua frente, largos minutos, com o cabide a pender do braço esticado. «Passámos muitas aventuras... Eu e tu... Muitas aventuras... Bons tempos que já lá vão... Bons tempos...» Tocou com leveza o tecido suave, agitando as pregas murchas.
Pendurou o cabide no puxador de uma porta fechada e abriu mais a que tinha o espelho, fixando-se no reflexo triste que este lhe devolvia. Empurrou para cima as peles moles da face com as duas mãos. Depois, fez músculo com força e pôs os braços em ângulo recto. Tocou num e noutro braço desesperando com a evidente flacidez. «Bons tempos que já lá vão...» E desceu as duas mãos para a barriga enquanto se virava num perfil que contemplou ao espelho. Lembrou-se dos cigarros consumidos à janela nos fins de tarde frios e, instintivamente, levou a mão ao bolso da camisa. Acariciou o maço junto ao coração como algo seguro e fiável.
O primeiro estrondo interrompeu-lhe o plácido encadeamento dos pensamentos sem se aperceber realmente do que estava a acontecer. Seguiram-se o segundo e o terceiro. E depois, mais três quase de seguida. Dirigiu-se à janela e viu mais duas pedras embaterem com o mesmo estrondo num bidão de latão ferrugento e sossegado num canto do quintal. Do outro lado do muro, junto à entrada, três rapazes, muito novos, estavam de cócoras a apanhar pedras que serviriam para futuros arremessos. Ergueram-se e continuaram na mesma rotina. O embate das pedras no metal ferrugento produzia um som estridente que parecia agradar-lhes. «Diabo dos miúdos – disse com ironia – Não têm mais nada para se entreter senão isto... Diabo dos miúdos».
Deixou tombar a cortina à frente dos vidros e seguiu vagaroso para a cozinha. Abriu um armário, depois outro, vasculhando o interior impaciente. Depois, abriu e fechou outra porta. E repetiu os gestos mais uma vez. Por fim, decidiu-se a rumar à sala. Por momentos, aparentemente perdido, acabou por se dirigir à mesa, onde, depois de desviar um monte de jornais e revistas velhos, encontrou um saco transparente com rebuçados coloridos, que agarrou com avidez.
Satisfeita a ambição dos seus gestos, deslizou sorridente pela divisão da entrada de novo em direcção à cozinha e daí para a porta que abria para o quintal. Mais uma vez, espreitou através do vidro os rapazinhos que entretinham o tédio no arremesso de pedras ao bidão. Ficou assim, indeciso neste olhar longo para a repetição de gestos lassos, por um minuto ou dois, antes de se decidir a abrir a porta para o exterior. Entretidos nestes afazeres, os rapazes nem deram pela figura barriguda e mal vestida que estacara à porta da casa. Até que aquele que parecia o mais velho dos três deu o alerta e os outros dois prontamente agarraram as mochilas e malas caídas no chão, prontos para a retirada.
A reacção imediata dos miúdos toldou a perspectiva do velho cujas pernas tremeram até quase cair. Encostou-se no caixilho da porta e acenou em esforço o saco de rebuçados à altura da cabeça. «Eh! Não precisam ter medo! – gritou numa voz rouca – Venham cá! Não precisam ter medo!» Do outro lado do muro, os três rapazinhos deitaram um olhar amedrontado para aquela figura de aspecto sujo e desagradável que os chamava, e puseram-se em cima das bicicletas. O velho gritava. «Venham cá! Tenho aqui isto... para vocês! Ouviram?» Um dos miúdos ainda o olhou uma última vez, deixando que os outros partissem à sua frente, mas depois, também ele desatou a pedalar depressa ao encalço dos amigos.
Nesse fim de tarde, de novo dentro de casa, o velho foi à cozinha buscar uma garrafa de plástico com vinho e regressou para o sofá da sala, onde bebeu dois copos de seguida, enchendo logo um terceiro. Depois, permaneceu o resto da tarde na penumbra, sentado no sofá em frente da televisão desligada, com o saco de rebuçados de cores vivas em cima dos joelhos. Mecanicamente, um após outro, retirou todos os rebuçados de dentro do saco, desembrulhou-os com mãos trementes e gestos lentos e comeu-os. Às vezes, interrompia este processo com um cigarro que fumava também devagar. 

J.P. Limão
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publicado por Instantes Decisivos | link do post | comentar

1 comentário:
De Maria a 31 de Março de 2008 às 17:02
É urgente não se perder este olhar. Parabéns!


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