Segunda-feira, 7 de Abril de 2008
Funesta aparição
Abril 07, 2008

“... as nossas maiores tragédias passam-se na nossa ideia de nós.”

Bernardo Soares, Livro do Desassossego
 
Não interessa quem sou, como me chamo, que idade tenho, nem a minha profissão. Apenas que esta história se passou comigo, no dia vinte e sete de Dezembro de dois mil e sete.
Tinha decidido tirar férias na semana que antecedia o Ano Novo para espairecer da monotonia e tédio quotidianos e repensar o futuro pela enésima vez. Após ponderar as alternativas geográficas (não eram muitas, devido à minha precária condição financeira), optei pela casa de veraneio, no litoral algarvio, de um tio paterno com quem mantenho saudáveis afinidades.
No fatídico dia, acordei perto da uma da tarde. O clima convidava a sair de casa, resplendia um belo dia de Inverno. O sol radiava e a brisa, com benigna disposição, era tão suave que o seu sopro acariciava as faces daqueles por quem passava. Fui até à praia. Sentei-me na areia e saboreei, com repartido deleite, aquele idílio natural: inalei o odor fresco e salgado da maresia; contemplei o lento vogar de farrapos de nuvens e o voo sinuoso das gaivotas no céu; escutei a marulhosa música das pequenas ondas que, com a subida da maré, se espraiavam cada vez mais perto dos meus pés. Acabei por empreender um sonho em que viajava num veleiro, sulcando as águas calmas do Mediterrâneo, deixando atrás de mim o alvo rasto das flores da espuma. Aportava em ziguezague nas terras do Sul da Europa e do Norte de África, como se fugidiamente lhes roubasse um beijo, para por nenhuma me enamorar. 
Perdia-me eu naquelas amplas divagações marítimas, quando alguém se sentou na penumbra da minha sombra. Embrenhado como estava no sonho, decidido a gozá-lo, não dei relevância ao facto de uma pessoa escolher um local tão perto de mim para estar, com a praia quase vazia. Passado algum tempo, porém, a sua proximidade tornou-se-me incómoda, interrompendo em definitivo a minha quimera. Não conseguindo ignorar a sua presença, tentei fingi-lo, através de uma banal distracção. Enchi as mãos de areia solta, comprimi-as, elevei-as e abri, entre dedos, pequenos canais de passagem. A areia escoou em fios, e a minha mente evocou clepsidras de antanho balizando o tempo. À força de fingir, ignorei aquela presença. Mas por pouco tempo.
Padeci então do primeiro estarrecimento dos vários que nessa tarde me desconcertaram. Terá sido uma mera extensão do meu devaneio, cujo o ponto de contacto me escapou ao entendimento? Ou realidade abrupta, que nele se intrometeu? O certo é que me vararam duas raras sensações em simultâneo, imiscuídas uma na outra como o azeite na água, conservando, cada uma, a sua distinção.
Começo por falar da mais comum entre as gentes, o déjà-vu. Foi, por certo, o mais intenso e prolongado que vivi até aos dias de hoje. Tive a impressão definida de já ter visto, grão a grão, o escorrer de todos aqueles fios de areia entre dedos. Igual impressão me provocou cada montinho de areia que cada fio erigia. O brilho do sol reflectido nos cristais dos grãos cimeiros fechou uma reprodução precisa de um episódio no passado vivido por mim.
A segunda e mais rara sensação é a de metempsicose. O facto aterrador deste episódio é que a excessiva nitidez do detalhe arenoso foi por mim avistada a partir do corpo do homem-sombra! As percepções dos meus sentidos haviam recuado obliquamente menos de dois metros, mas o meu modo de sentir era o mesmo. Agora observava, em sobressalto, o corpo-que-deixei.
Farei aqui um corte na narrativa, pois a imagem seguinte de que me recordo é a de esfregar, hesitante, as mãos do meu corpo original, ignorando o que se sucedeu entrementes.
Mal refeito do choque, enquanto as artérias e veias jugulares retomavam o seu diâmetro habitual, empurrando o coração de volta para o peito, distingui um riso muito subtil, quase inaudível. Melindrou-me desmedidamente, esse riso. Era um riso trocista, de alguém que perscrutava, sem pejo, as minhas bruscas mutações emotivas. Múltiplas e viscerais sensações tomaram-me novamente de assalto. Via-me nu como jamais me vira, desamparadamente nu.
O sol começava a baixar. No fim de Dezembro as tardes são mais curtas, aqui, no hemisfério norte. A temperatura diminuía e a brisa, como um órfão sem tecto, crescera num ápice, e fizera-se vendaval. Eu já só queria estar em casa, confortável, sozinho, não naquela praia, com aquele clima pondo-se agreste, ao pé daquela importuna e velada figura.
Sem que nunca deixasse de temer, arrisquei um acto temerário. Não incivilizado mas, de certa forma, agressivo. Voltei-me de repente e olhei, com um ar desafiante, o meu opressor. Mas acto contínuo esse ar esboroou-se em espanto, incredulidade e repulsa. Deve ter sido hilariante, a minha mudança de feições, avaliando-a pelo riso espalhafatoso que provocou no meu antagonista. Que, acaso, era EU próprio! Obviei-me vítima duma violenta alucinação, pois nenhum espelho se interpunha entre mim e o ser que estava à minha frente.
Reagi como quem não se adapta a uma sociedade dinâmica, negando veementemente as suas mudanças sem sequer ponderar a possibilidade de recorrer à razão. Apoiei uma mão na areia com o propósito de levantar-me e voltar para casa, invalidando as minhas percepções, que me diziam estar ali um gémeo do qual eu não fora informado da existência. Ele, indiferente à minha perturbação, com um sorriso escarninho estampado no rosto, interpelou-me:
– Onde vais?
Com impressionante vividez, reconheci, na voz que escutava, a minha própria voz. Contudo, esforcei-me por me manter absorto no plano que tinha traçado e levantei-me. Mas não dei um passo. Tolheu-me uma vertigem de carrossel e tombei. No chão, fitei os seus olhos implorativamente. Ele, talvez compadecido do meu desespero, atalhou o diálogo.
– Temos de conversar. – disse-me, com um ar grave.
Emudeci. Embora a interrogação “quem és tu?” quisesse sair, as minhas cordas vocais adquiriram uma dureza ebúrnea e a minha boca apenas verteu um angustioso silêncio.
– O mais importante não é saberes quem eu sou, mas sim quem és tu. E tu és um sonho. Meu, naturalmente.
“Um sonho? Mas... e os fenómenos que compreendo? O universo que me cerca? As minhas sensações? Tudo isto é falso?”, pensei eu, ainda em absoluto mutismo.
– Não, um sonho não é falso. Tem vida própria. E, se queres saber o que te está a acontecer neste momento, eu digo-to. Apareci inesperadamente para te confrontar com a morte. Cessarás em breve, quando eu acordar.
A cada palavra que ouvia, o meu terror crescia exponencialmente. Assustava-me o não precisar de articular uma palavra para obter respostas às minhas interrogações. Cheguei a crer no que me era dito por mim (ele?!). Ainda assim, uma réstia de instinto de auto-conservação impelia-me a negá-lo (negar-me??!!!). Consegui, por fim, balbuciar algumas trémulas palavras:
– E qual a prova de que não és tu um sonho meu?
– Prova provada nenhuma obterás, nem eu ta darei. Mas argumentarei que é evidente o meu ascendente sobre ti, não o contrário. Eu não adivinho os teus pensamentos. Sei-os. Sou a sua raiz. Todavia, tu desconheces os meus.
Fiquei em estado letárgico com a aparente irrefutabilidade daquelas palavras. As horas passaram. Caiu uma bátega gelada. A ténue claridade do crepúsculo sumiu-se por completo na noite. O afiado gume eólico lacerou-me os lábios e feriu-me a carne. Nenhum de nós se moveu. De súbito, o meu espírito formulou um contraditório, que a minha voz reproduziu:
– A tua última sentença é inexorável, mas apenas relativamente a mim. É inegável a subjugação da minha vontade à tua. Nada me garante, porém, que não és o sonho doutrem e que eu não sou, por isso, um sonho dentro dum sonho. Por conseguinte, nada me garante que tu, enquanto sonho, não tenhas mais do que um aparente e limitado controlo sobre mim.
“Admitindo esta possibilidade, quem sabe se, talvez por seres menos interessante, não serás primeiramente suprimido do sonho desse outrem, e não fique senão eu para alcançar o objectivo do prossecutor?
Fugaz como um relâmpago, aquele ente esvaneceu-se. Voltei a casa e preparei um banho que me serenasse. Em vão. Durante dias, dormi mal ou não dormi. Depois, procurei ajuda psiquiátrica, sem lograr relatar uma única palavra deste testemunho. Estive internado no hospício vinte dias, fortemente sedado. E desejava, mais do que tudo, que este escrito tivesse em mim um perene efeito catártico.
 

Henrique de Lemos



publicado por Instantes Decisivos | link do post | comentar

1 comentário:
De Moreno a 8 de Maio de 2008 às 19:31
Fazendo uma análise rigorosa à tua escrita teria muito a dizer mas vou-me ficar pelo básico.
Como te disseram antes, uma escrita cristalina, e como te digo agora, com uma grande dose de loucura.
És tu simplesmente.

Estou admirado!!! Bravo


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