Terça-feira, 6 de Maio de 2008
O Sol e a Lua
Maio 06, 2008

O Sol escondeu-se atrás das nuvens. Estava envergonhado. Abraçado pelas nuvens brancas, recolhia-se numa vergonha glaciar, que lhe gelava a alma. Estava apaixonado. A Lua, de cara lavada, olhos fundos e expressão nostálgica, tinha trocado as voltas ao Sol, que preferia ficar a dormir de dia para de noite a encontrar. 

Os humanos ficaram desorientados. Os dias passaram a ser noites, (porque o Sol estava a dormir) e as noites pintavam o céu de uma cor violeta, a cor que possibilitava o encontro amoroso.
A vida na Terra tornou-se desconhecida. Já ninguém dormia horas certas, trocavam-se os sonos como quem troca de namorado aos cinco anos. As empresas e as fábricas ameaçavam falência, reinava a indisciplina entre os empregados. As escolas fecharam, os pais punham as crianças a dormir de dia. As flores não desabrochavam, as marés incertas impossibilitavam a pesca no mar e os galos já não despertavam as aldeias a horas certas. Os animais recolheram-se em grutas, o trânsito automobilístico, os transportes, os aviões pararam.
Os governos e altas instâncias militares mundiais reuniram-se. Era preciso restaurar a ordem necessária à sobrevivência da espécie humana. O presidente da Terra resolveu enviar um foguetão a jacto, comandado por dois bravos pilotos japoneses rumo ao Sol. Atentado suicida ou não, o facto é que o lançamento foi um êxito. Ao chegarem perto da superfície solar, emitiram um vídeo de vários países a pedirem ao Sol que pensasse no destino da humanidade.
Recolhido nos seus pensamentos enamorados, o Sol acordou sobressaltado com a presença dos dois intrusos e entristeceu-se com tal mensagem. Tentou ignorar. Ultimamente tinha-se tornado demasiado egoísta, fechava os olhos às consequências dos seus actos, preocupava-se apenas em fugir para os olhos da sua paixão lunar. Gostava particularmente de a ver cheia, cheia de si, redonda em todo o seu esplendor.
A Lua, mais consciente, vivia um amor mais tímido, permanentemente assaltado pela nostalgia de que o primeiro beijo trouxesse consigo agarrado o espectro de um último.
Passaram-se dias. O apelo humano não deixava o Sol dormir descansado. Desde que o foguetão humano desaparecera da sua órbita, tremia com o sofrimento humano. Sendo um astro rei, estava a deixar o seu reino abandonado. À noite conversou com a Lua e confessou-se. Ela chorou uma lágrima metálica, abraçou-o indiferente ao seu calor. Rodopiaram  toda a noite no plano astrológico do céu e trocaram a jura de um amor eterno, perante os olhares curiosos das estrelas.
No final pensaram a solução. Combinaram encontrar-se sempre que houvesse um eclipse, da Lua ou do Sol, encontros rápidos e fortuitos, mas que permitiriam uma vivência eterna dos seus encontros. Na Terra a vida recomeçou de novo.
 

Inês Maria 



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