Sexta-feira, 23 de Maio de 2008
Na margem da rebelião
Maio 23, 2008
No século das rebeliões, relembramos a dos estudantes. A mais generosa...
O fumo do tabaco constrói a barricada nebulosa, os odores do absinto e demais licores espirituosos viciavam a atmosfera do café Les Deux Magots próximo do Quartier Latin. Aí os estudantes conversam sobre a deflagração dos seus acontecimentos convertidos em notícias do mundo.
Num recanto, Sartre rabisca um panfleto. Filósofo a sério! Claro sempre comprometido com a causa. Encapotado na gabardina da suspeita, aparece Michel Foucault, em entusiasmo e euforia com a rebelião estudantil. Sartre, sem desviar os olhos estrábicos, indica-lhe uma cadeira, arruma as notas e conversam com cordialidade. Só faltava esta cerejinha no topo do bolo! Os inimigos na filosofia do sujeito como amigos na luta da coisa pública. É bonito de ver.
De fora, os jovens observam embevecidos o encontro dos ídolos dos seus ideais, ali respirando o mesmo ar saturado.
Um dos líderes estudantis escreve no papel de mesa o plano para o dia seguinte. A fórmula da nova humanidade num toalhete manchado de café…
No grupo, quase à margem, um casal saboreia em deleite, beijos copiosos, e mãos indiscretas em formas fogosas, ignorando por ora a estratégia da rebelião.
Tumultuoso mês, Maio de 68.
Vindo do nada, Cohn-Bendit, carismático, provoca a agitação geral, ao transportar ainda o espírito do alvoroço das ruas:
- Camaradas, a luta está ganha! Paris está em ebulição. Há greves e barricadas por toda a parte.
- Os panfletos e os pasquins distribuídos em cada rua… – confirma outro.
- Nenhuma parede escapou aos grafittis – continua Bendit – Próximo de La Défense, da autoria dos anarquistas, li bons veículos para a reflexão: “Não percas a vida a ganhá-la” ou “Intelectuais não queiram ser os cães de guarda do poder capitalista”.
- A liberdade começa na consciência – atacou outro – falámos com Sartre, está ao nosso lado, pretende reunir-se connosco.
- Trataremos isso depois, de imediato planeemos o remedeio de alguns excessos – volta-se Bendit para o enamorado:
- Por aqui Hugo? Depois dos acontecimentos com os carros da polícia, deves retirar-te… durante algum tempo.
- Sossega Cohn, a operação foi limpa, mas se achas bem, retiro-me, isso é óptimo, pois ando ocupado...
- Não quero meter-me na tua vida, mas deves definir-te: queres envolver-te no nosso movimento ou lambuzares-te com a rapariga? E quem é ela?
- É a Nicole! Conheci-a hoje à entrada da Sorbonne, depois da R. G. E., veio felicitar-me pelo discurso. E não perdi a ocasião. Há que pôr em prática a revolução sexual – não é camaradas?
- E ela é de confiança?
- Descansa Cohn, é das nossas… se estão de acordo vou para a sombra, como tenho medo do escuro, levo-a comigo, aproveito e mostro-lhe a minha biblioteca.
- Tudo bem, retirem-se durante uns dias! E divirtam-se.
No café continua a conspiração… na rua a sedução…
De braço dado, com o desafio, passeiam junto ao Sena, onde as águas reflectem a iluminura da cidade nocturna. Ouvem o tumulto em eco distante. Em contraste, sob a ponte de St Michel, casalinhos amassam-se em regalos íntimos. Uma sirene da polícia inquieta o passeio idílico. Apressam o passo. Cruzam a avenida junto aos alfarrabistas e voltam à segurança do Quartier Latin.
Sucedem jovens em bando com bandeiras vermelhas e pretas, procurando o centro das movimentações, onde estoiram os acontecimentos. Em cascata: riem, cantam, gritam slogans. A palavra invade as ruas. É o modo do verbo se converter em acção política, prescindindo da mera retórica anémica. Possuem uma cota de poder e não abdicam dela.
Tumultuoso mês, Maio de 68.
O indivíduo concreto ganha estatuto universal desempenhando o protagonismo histórico: “Apenas é proibido proibir!”. E, deste modo, começa a ser mais fácil ser-se jovem.
Transportam bornais com pedras. Certamente não pretendem edificar nenhuma calçada, nem outra Notre Dame. E há os que aparecem nos braços dos companheiros, com escoriações e cabeças partidas, como resquício do calor da peleja campal. Agitação do mar de gente ondula na retaguarda da batalha.
Cada qual na sua luta…
As nossas personagens sentem-se em segurança nesta buliçosa parte da cidade. Alcançam, enfim, à residência estudantil, onde Hugo tem um modesto quarto, mobilado com estante, cadeira, secretária e cama. O único luxo: um pequeno gira-discos, no qual toca Bob Dylan, Blowin’in the Wind, como uma lufada profética de ar fresco: How many roads must a man walk down/ Before you call him a man? … The answer is my friend, is blowing in the windSentem a lufada da resposta soprada no vento. A vibrante mensagem arrasta-os enlaçados até à janela invadida com os rumores da rebelião. Lá fora a luta. Na barricada há resistência à carga e aos canhões de água da polícia.
Tumultuoso mês, Maio de 68.
Hugo fecha repentinamente a janela… Nicole, surpreendida, denuncia a contradição do amigo: adula os acontecimentos, mas fecha a janela à vida pública, ou à dilacerante Sirene da polícia?
- Não vais com os outros apedrejar a polícia?
- Não entendes nada, Nicole, devo resguardar-me, pois já cumpri o dever. Sou um operacional que deu a cara. Posto isso, não posso ser visto de momento.
- És um sonhador. Mas se isso te aproxima de mim, que se lixe a greve e a luta…
- Não se lixa nada, miúda! Devemos lutar contra o sistema corrupto e a sociedade podre. Toma o exemplo da aliança operária e estudantil dos últimos dias. A liberdade é o máximo, menina. Sabes o que é trazer-te à residência sem o porteiro a coscuvilhar? Pensa bem nisso!
- Se pretendes combater os tigres de papel da burguesia, qual a razão de me trazer para aqui, em enleio romântico?
- Estou-me nas tintas para o romance, o amor e a família. Quero comer-te e ponto final. A transparência acima de tudo, não é isso!?
- És um bruto. Se não significo nada para ti, vou-me embora.
- Claro que me dás pica. A noite vai fazer de ti uma rapariga feliz. Deixa-te de sentimentalismos fora de época, devemos ser práticos. Não quero falsas ideias burguesas, com o amor cor-de-rosa à mistura. Estás a perceber? Isto não é uma foto novela! Ouviste bem?!
- Mas se és sincero, diz tudo o que se passou contigo. Se disseres à tua Nicole, alivias a consciência e tens direito a brinde…
- Isso sim, miúda, isso é falar…
- Contas já, ou é para o dia de São Nunca à tarde?
- Calma menina, as barricadas de Paris e de Pavia não se fizeram num só dia. Aí vai a história. Mas espera…
- Qual é a novidade agora?
- Fazemos um jogo, para dar mais pica! Em cada revelação que eu faça, tu tiras uma peça de roupa.
- Não é necessário tanta fantasia.
- É pegar ou lagar, a escolha é tua, o proveito dos dois.
- Pronto, está bem!
- Como percebeste as regras do jogo, revelo o início do enigma: passou-se ontem, junto ao Panteão. Podes tira a blusa!
- Posso retirar primeiro o chapéu?
- Não te atrevas, deixa estar o chapéu, tenho um fetiche danado por chapéus…
- OK! mantém a calma…
- Nessa operação demos cabo dos cornos à polícia… Estás à espera de quê para tirar a saia!?
- E as botas?! Primeiro são as botas!
- Chavala, gosto de ver uma miúda bem montada no par de botas.
- Caramba, não reconheço este raio de jogo! Pensava que podia escolher.
- Nicole, como diz o meu psicanalista, o Lacan, nós não pensamos, somos pensados, neste caso pela sintaxe do desejo. Tenho de te ensinar tudo?
- Aldrabão! Queres dizer o teu desejo. E eu, não conto?
- Está já a chatear-me a molécula! Assim ficas complexa para burro, aqui para o gosto do selvagem! Aprende a inocência do prazer e cala essa boca reaccionária.
- E tu deixa-te de tretas e conta a história.
- Queres acção? Fui eu, de facto, que atirei o primeiro cocktail molotov contra os carros da polícia.
- Não precisas de dizer mais, o resto li no jornal: um polícia ferido com queimaduras graves, não foi isso? – Interpelou ela.
- És mesmo uma cabra danada!
- Não é necessário ofenderes-me…
- Violaste as regras do jogo, por antecipação. Como castigo tiras duas peças de roupa: o saiote e a camisa.
- Posso optar, e tirar antes o cinto?
- Quero-te de chapéu, sapatos e cinto?! Isto vai ser à minha maneira!
- Cada vez parece mais esquisito o teu jogo…
- Usamos um carrinho de bebé para bloquear numa passadeira os carros da polícia, que iam reforçar as forças da repressão. E agora solta o soutien!
Depois dos seios firmes de Nicole coreografarem espetados no ar um bailado de excitação, deixando Hugo de língua de palmo e meio, é melhor correr a cortina do pudor sobre a libido libertada no dossel…
Pois, muito tumultuoso foi de facto aquele mês de Maio de 1968.
 

Carlos Amaral



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