Segunda-feira, 9 de Junho de 2008
Morrer de Amor
Junho 09, 2008

"Conta-me mais..."

"Não ouviste nada do que te disse...", respondes-me tu.
(penso: "ouvi, ouvi tudo, ouvi até para além do que disseste")
Acendes mais um cigarro para disfarçar o desconforto que o meu olhar te provoca. Espreitas por cima dos óculos escuros que nunca largas e sorris como uma menina.
"Não olhes assim para mim", pedes.
Pego-te na mão e retiro-lhe o isqueiro que apertas com força:
"Porquê? Gosto de olhar para ti..."
A tua mão foge da minha, corada.
"Pfff!... " e fazes uma careta para me contradizer.
Sorrio: "Não posso gostar de olhar?"
Levantas a cabeça em ar de desafio:
"Podes. Podes tudo o que quiseres. Mas não me convences."
Encosto-me para trás na cadeira:
"Não te quero convencer. Apenas disse o que penso. É assim tão mau?"
Olhas para a mesa do lado, fingindo-te distraída: "Depois vais dizer que me queres."
Não consigo conter uma gargalhada
(não consigo tirar os olhos de ti):
"Vou? Não ia... mas estava a pensar nisso."
O meu riso relaxa-te. Olhas-me outra vez e o teu sorriso é sincero: "Esses olhares..."
Estendes-me a mão por cima da mesa: "Desculpa, às vezes é difícil não generalizar."
Seguro a tua mão entre as minhas. Os teus dedos são compridos com unhas longas, cortadas rente, sem qualquer artifício. Detenho-me num pequeno calo no teu dedo médio: "Porque não o tiras?"
Sorris ainda mais: "O meu calo de estimação? Está a desaparecer sozinho. Cada vez escrevo menos à mão" – esticas os dedos (são vaidosas as tuas mãos) – "Tenho-o desde criança. Recorda-me sempre as sebentas que enchi de histórias..."
Observo-te a palma da mão: "As histórias que contas... Porque é que nunca falas de ti?"
Ris-te (começo a entender o som do teu riso):
"Gosto de contar histórias. Mas cuidado, não acredites em todos os pormenores. Nunca as conto da mesma forma: depende sempre de quem as ouve"
(penso: "hábil! fugiste à pergunta...")
Repito: "Porque é que não me falas de ti?"
Tens os olhos escondidos pelas lentes escuras mas a tua mão denuncia-te:
"De mim? Porque não há nada para dizer. As histórias são muito mais interessantes."
Entrelaço os meus dedos nos teus (percebo que é assim que quebro a tua vontade porque a tua mão, que não é pequena, parece frágil nos meus dedos):
"Deixa-me ser eu a julgar. Fala-me de ti. Diz-me quem és."
Debruças-te sobre a mesa e retiras os óculos escuros: "Que queres saber de mim?"
Imito-te. Debruço-me sobre a mesa e vejo-me reflectido nos teus olhos: "Tudo..."
Mesmo mergulhado nos teus olhos consigo ver o movimento imperceptível da tua boca, aquele teu morder de lábio que eu conheço tão bem, quando tens algo para dizer mas achas que não o deves fazer. De repente tenho a sensação que não devia ter insistido. Vou-me arrepender de te ter perguntado porque tu vais dizer-me o que eu não quero ouvir. E tu em silêncio, fixas no meu o teu olhar, que já não suporto mas a que não consigo fugir.
"Eu conto-te tudo sim..." – ergues o copo – "ainda há vinho?" E eu sei que foi a desculpa que encontraste para largar a minha mão.
Sirvo-te um pouco de vinho e levas o copo aos lábios, sem desviar o olhar.
Depois sorris: "Tens a certeza que queres saber tudo?"
Tenho vontade de te dizer que não, que cales as palavras que eu um dia pensei que fosses esquecer, que eu julgava esquecidas durante todas as histórias que me contaste ao jantar, que percebo que afinal estão aqui entre nós, que nos vão separar, que já nos separaram. Continuas a sorrir mas o teu sorriso já não é de gozo, é dor escondida, disfarçada de alegria. Não te quero ouvir mas oiço os meus lábios dizerem o contrário: "Sim, quero!"
Contas-me então a última história que te ouvirei. A continuação de uma história que eu conheço. Uma história onde sou eu o personagem principal, onde fui príncipe encantado e acabei representando um papel que não me destinaste, que não quiseste, o papel de vilão. Uma história que descubro que me dói porque não a imaginaste, onde contrariamente ao que costumas fazer, não exageras, não fantasias, um relato exacto de tudo o que se passou, de tudo o que eu não vi, não entendi, não pensei. O lado da história que eu preferi ignorar, inconscientemente é certo, mas não menos inocente por isso. Leio-te a mágoa nos dedos que pegam em mais um cigarro, nos lábios que se tornam secos em contraste com os teus olhos que brilham sim, já não de riso mas de uma espécie de pérolas tristes que as memórias te trazem, que noutra vida eu teria visto correrem livremente pela tua cara mas que hoje se mantêm contidas, como se prisioneiras desse sorriso que não te abandona, que é uma máscara colada num rosto que nunca vi tão lívido, desprovido de sangue e de calor.
Sinto que suspiras cada palavra, é este o alívio que procuras há anos, que finalmente chega, ainda que tarde, porque é demasiado tarde, sei agora que é tarde demais. E cada palavra, recitada docemente como se a história não fosse tua, entra no meu peito rasgando-o, expondo-o, expondo-me, deixando-me sem reacção, apenas uma vontade imensa de te abraçar, de te pedir perdão de uma culpa que não me atribuis.
Toco-te a face, quase sem pensar. Sinto-te fria. Reparo nas olheiras, na pele seca, nos olhos baços. Estremeço e tu aconchegas-me a mão na tua face.
"Não era esta a história que querias ouvir, pois não?" Perguntas-me.
Engulo em seco, não consigo responder. E tu sorris, sorris sempre.
Deslizas a minha mão para a tua boca e depositas um beijo nos meus dedos.
Depois levantas-te, pegas na mala, no casaco e debruças-te sobre o meu ouvido:
“Lembras-te, meu querido, de não acreditares que o Amor mata ?” – sussurras –
“Pois olha bem para mim... eu sou a prova de que se pode morrer de Amor!”
E afastaste-te sem olhar para trás.
 

Maria Helena



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