Segunda-feira, 31 de Março de 2008
Como escrevi “Nobre Estripador”
Março 31, 2008

A gente pequena habitante das suas casinhas nos subúrbios nunca poderá apreender a verdadeira dimensão da literatura. Sejamos francos: a real apreciação da arte está reservada apenas aos espíritos elevados. Não discuto a existência de um núcleo de assíduos que intervalam a monotonia do movimento casa-emprego-casa com umas horas de leitura mas, aqui para nós, duvido muito que essa fornalha de gente só, em permanente combustão de si própria, tome dela – da arte literária – a substância que a engrandece. Para estes pobres coitados sem mais nada que fazer, ler um livro ou pedaços dele é tão enriquecedor como aparar a relva do jardim num dia de primavera. Sabe bem, é nitidamente diferente de adormecer no sofá, mas não lhes serve de grande coisa.

Sempre tive para mim que a literatura só existe em duas formas: a má e a incompreendida. É da última que trata o meu grande romance “Nobre Estripador”. Já devem ter ouvido falar. A par de dois ou três folhetins franceses subvalorizados – e um americano bastante razoável – conseguiu entrar directamente na galeria dos grandes romances incompreendidos de qualquer século e o autor – eu próprio – no lote restrito dos artistas bafejados pela sorte de poderem viver às custas do seu enorme talento – e aqui não estou a exagerar.
Não digo que exista uma grande diferença entre o artista e o homem comum. Biologicamente são iguais. Psicologicamente até, são bastante parecidos. Duvido mesmo que um seja mais inteligente que o outro – se os artistas fossem inteligentes não desperdiçariam dias inteiros a trabalhar o que quer que fosse. No entanto, duma coisa não tenho a menor dúvida: o artista não sabe porque trabalha. O homem comum trabalha porque “deve”. E nisso reside a diferença principal.
Porque escrevi eu então “Nobre Estripador”? Porque não me dediquei a aparar o jardim ou a ver os outros apararem os seus jardins? Porque razão me despedi do meu emprego e de toda a vida social e me fechei no escritório a acabar uma das obras do século? É isso que vos tentarei explicar e a mim próprio. Foi por isso que escrevi “Como escrevi ‘Nobre Estripador’”.
 
Tendo sido sempre o melhor dos alunos nas melhores escolas onde fui educado, aos dezoito anos deparei-me com duas alternativas: abandonar os estudos e trabalhar – como muitos – ou ingressar na faculdade – como os espertos. O meu pai aconselhou-me a segunda hipótese. Sempre acatei os conselhos do meu pai, não sem algumas reservas num ou noutro ponto, fruto da diferença de idades. No entanto, aquele coincidia exactamente com o meu plano pós-liceal: adiar o inevitável por mais quatro anos. Assim o fiz, para meu bem e da humanidade.
Se o primeiro ano de graduação foi passado entre a biblioteca e os diversos bares do Campus, provando todo o tipo de conhecimento milenar – o escrito e o misturado com gelo – o segundo foi bastante diferente. Acometido dum certo tédio, provocado pela repetição contínua das mesmas misturas em livros e bares diferentes, no ano dois resolvi abster-me da vida académica e começar a rascunhar o que viria a constituir material para o capítulo dois e quatro de “Nobre Estripador”.
Na altura, pensara escrever algo parecido com um romance sério. Tinha-lhe mesmo dado o insólito título de “A Casa Grande do Lago Fishbone”. No entanto, após mostrar alguns excertos a amigos mais próximos, percebi que era ainda demasiado imaturo para embarcar na árdua tarefa da literatura de fôlego. Decidi então parar e dedicar-me aos contos.
O meu primeiro conto foi uma tarefa inesperadamente árdua. Arduamente inesperada, também. Trabalhei dias a fio, fechado na minha residência nos arredores do campus. Recusei-me todo o tipo de lascívias e distracções. Dois meses depois de ter iniciado a hercúlea tarefa, exibi com um certo orgulho o resultado ao editor do jornal dos alunos. Era um tipo novo e um pouco snobe, dotado de um curriculum invejável – era filho de um famoso publicista. Sempre tive consciência que o génio é algo geneticamente transmissível, por isso e apesar de nada conhecer de escrito do jovem editor, confiei no seu julgamento.
A reacção não foi entusiasmante em exagero. Porém, penso que o tipo gostou minimamente do que leu, pois anuiu publicá-lo no número seguinte. O conto, intitulado “Águas Furtadas, Desejos Semelhantes” não obteve grande reacção por parte da vintena de leitores do Jornal mas proporcionou-me a entrada no meio literário da faculdade.
 
Pertencer a um círculo literário ou a qualquer outro círculo não tem nenhum outro interesse especial que não o de conhecer novos companheiros de bebida e, num ou noutro caso, raparigas. Se aos trinta e quarenta anos as raparigas, escritoras ou não, se resignam ao papel de caricaturas de suas mães, aos vinte podem ser adoráveis. Na vida em geral, dedicam-se à construção subliminar de uma certa reputação. No plano das letras, maioritariamente à poesia. Essa tendência ligeiramente ingénua e romântica poupa aos “caçadores furtivos” a maçada da leitura exaustiva antes do prémio. Um poemita ou outro, intervalado por um copo de vinho é o suficiente para estabelecer uma relação mais próxima e compensadora.
Foi no círculo do Jornal de Letras do campus que conheci Sara Van Gauss. Ao contrário da ideia que tinha sobre as aspirantes a escritoras da sua idade, Van Gauss já adquirira a tal reputação, preparando-se agora para abandonar a poesia. Não esperou que eu lesse os primeiros capítulos do seu romance para me deixar entrar no seu mundo desbragadamente erótico e fascinante.
Como podem adivinhar, nos dois anos seguintes se alguma palavra escrevi foi o seu primeiro nome numa árvore, dias antes de me trocar por um atávico neto de um profundo capitalista.
O desgosto do abandono de Sara levou-me a redefinir prioridades. Concluí a faculdade e estabeleci-me como consultor financeiro júnior num pequeno banco com grande futuro. Um emprego respeitável – esperava eu – proporcionar-me-ia a possibilidade de organizar a minha vida na direcção duma casa maior, um carro de jeito e o suficiente tempo livre para retomar a minha escrita. Estava enganado. Mudei de renda, quase sem mudar de apartamento. Comprei um carro em segunda mão alérgico ao fim-de-semana. E quanto ao tempo livre... no pouco que tinha sentia a necessidade de evitar a secretária a todo o custo e dedicar-me antes a actividades libertadoras como visitar amigos ou sentar-me num banco de jardim e imaginar que aparava a minha própria relva.
 
Foi num jantar de amigos que me chegou aos ouvidos a história de um tipo que tinha ganho uma fortuna com a poesia. Segundo um dos meus mais próximos a poesia estava “na berra”. Ao ouvir isto, desculpei-me aos convivas e regressei imediatamente a casa. Se a poesia é que estava “a dar”, se pela poesia o mundo poderia finalmente compreender o meu formidável génio, então a luz da poesia brilharia sobre mim iluminando também o meu futuro público. No resto do fim-de-semana mergulhei na leitura atenta dos poetas clássicos e alguns modernos, dos quais retirei uma ideia geral do assunto.
Na segunda-feira seguinte liguei para o escritório e pedi à secretária que me enviasse a papelada necessária para meter baixa. Fui então visitar o dr. Orlando, o meu médico de família. Garanti-lhe que estava com uma depressão que me poderia levar ao suicídio ou à própria depressão. O bom e anafado Orlando não me fez a desfeita e assinou os papeis da baixa. Tinha um mês. Um mês para escrever um livro de poesia que revolucionaria o mundo poético nacional, até europeu.
Escrever poesia acabou por ser mais fácil do que esperava. A regra de ouro em voga era evitar a rima – no fundo, o grande desafio dos poetas antigos. Porém, a minha notável exigência auto-critica viu-me forçado a prolongar a baixa por mais três meses. Recorrendo a laboriosa ginástica médica e financeira, consegui ganhar tempo para rever, melhorar e aprofundar o meu estilo.
Ao fim de seis meses de duro trabalho, a obra estava concluída. A reacção dos editores dividiu-se entre o desinteresse e o encorajamento. Como era óbvio, todos tinham medo de arriscar numa obra também de si arriscada e inovadora. Nada que não esperasse já. Um dos editores sugeriu mesmo a inclusão de alguma rima. Ao que parecia, em seis meses a rima estava de volta. Chegou mesmo a afiançar-me um adiantamento se inserisse algum colorido rimado nos meus poemas. Como podem adivinhar, não aceitei. Sempre tive para mim a não subserviência do imperativo criador à circunstância.
Pedi ao meu pai para falar com um amigo de um amigo que escrevia num jornal semanário. O amigo do amigo fez a gentileza de receber o manuscrito, ligando-me passado quinze dias a combinar uma reunião. Através do amigo do amigo do meu pai, que tinha um amigo editor – um dos que recusara a obra – consegui que o editor amigo do amigo do amigo do meu pai, reapreciasse o meu talento. Tal como calculara, uma segunda leitura revelou todas as qualidades duma primeira investida poética, não só digna de publicação, como de substâncial orçamento promocional.
 
Nem dois meses tinham passado e a minha colectânea poética intitulada “Serpentário” estava em destaque nos expositores das principais livrarias. Tal como já esparava também, os críticos atiraram-se a mim como leões. Nos meses que medearam a escrita da publicação a rima tinha reaparecido, caído em desuso, regressando de novo para ficar. “Serpentário” não tinha uma única rima. Acusaram-me de “ultrapassado”. Disseram que me levava demasiado a sério. Um crítico chegou mesmo a ficar indignado com a paginação do livro, acusando-a de, e cito: “displicente e moralmente pejorativa”. É óbvio que não me abati. Decidi regressar em força ao “Nobre Estripador”, no fundo, o trabalho que me interessava e no qual deveria depositar todas as minhas energias.
 
Despedi-me. Na verdade, com a ajuda de um bom advogado amigo do meu pai, consegui que me despedissem sem justa causa, o que levou a que uma generosa indemnização se acomodasse temporariamente na minha conta bancária. Sem problemas de dinheiro e com tempo suficiente, regressei ao romance.
Passei cerca de meio ano tentando melhorar e adaptar os dois capítulos que escrevera na faculdade para a nova ideia que tinha para a história. Como sabem, o título antigo era “A Casa Grande do Lago Fishbone”. A ideia original era o relato detalhado de um fim-de-semana duma família disfuncional em que o avô, velho e doente terminal, acaba por se revelar a pessoa mais lúcida no meio de gente jovem e problemática. Foi muito difícil adaptar o segundo capítulo – a descrição da casa grande e do lago – para as ruas de Londres do século XIX, onde começa a saga do “Nobre Estripador”. Ao fim de muitas tentativas, desisti. Com muita pena minha, um lago no Canadá não se parece de maneira nenhuma com o ambiente soturno e industrial londrino. O capítulo quatro, tratando-se do relato de um sonho do avô, foi facilmente transponível para a personagem principal do estripador.
 
Dois anos depois do meu injusto despedimento e com duas ou três paragens por ano para descansar na nossa casa na costa, todo o romance estava delineado, quatro capítulos escritos e dois em vias de finalização. Mas o optimismo na arte não se compadece com a teia pessimista que a vida tece em volta do ser a que chamamos artista. Todas aquelas minhas investidas pela costa acabaram por condicionar uma enorme desvalorização na minha conta bancária. Necessitava, mais que nunca, de um salário.
Sem dar por ele, o tempo passara por mim e a minha cotação no mercado de transações de massa bruta de trabalho descera a pique. A morte do meu pai tinha deixado uma mancha substancial no meu currículum. Dois anos era muito tempo para a gente dos negócios e, para meu lamento, o meu amável progenitor já cá não se encontrava para colmatar essa área branca, vazia de actividade para qualquer das pessoas comuns que não percebem nem nunca perceberão o trabalho que a arte dá.
Para arranjar uns tostões, vi-me forçado a colaborar num pequeno jornal de província que me obrigava a deslocações constantes ao campo e a conviver com um velho e rabujento editor, provavelmente um artista da facção cobarde – aqueles que não arriscam trocar o conforto do funcionalismo social pelas agruras de uma vida dedicada ao belo. Mas o bom e velho editor acabou por me ensinar generosamente duas ou três coisas sobre a escrita que me tinham passado ao lado. Tratando-se dum jornal de província que ninguém lia, as colaborações primavam pela excelência do uso da língua para colmatar a falta de novidades. A experiência jornalística engrandeceu o meu vocabulário e activou em mim o gene da fluidez de discurso.
 
Nos dois meses que colaborei no jornal ganhei novo fôlego para escrever e, finalmente, completar o “Nobre Estripador”. Ganhei também uma pequena úlcera que, a par do encaixe financeiro proporcionado pela herança do meu pai, precipitou a minha saída do meio jornalístico.
Arriscando com a saúde, decidi ignorar a úlcera. Cautelosamente, aproveitando as lições do meu passado perdulário, coloquei algum dinheiro de parte. Com o resto da herança encetei uma jornada pela velha Europa em busca de inspiração para o fôlego final do “Estripador”.
 
A primeira paragem foi Londres. A impressão que a cidade me deixou foi a de que, na actualidade, se assemelhava mais com a londres novecentista que a ideia que eu fizera da cidade no século dezanove. Isto obrigava-me a reescrever de novo todo o segundo capítulo, o que me angustiou profundamente e ditou o adiamento do meu regresso até ele se tornar descaradamente inevitável face à escassez económica pessoal.
Regressado do meu périplo inspiracional, retomei o trabalho com afinco. Os primeiros tempos foram de intensa produção. No entanto, uma úlcera mal curada começava a incomodar verdadeiramente. Depois de uma semana de cama sem me conseguir mexer acabei por visitar o filho do dr. Orlando – o meu novo médico de família, já que o próprio morrera de ataque cardíaco ditado pelos charutos que tanto apreciava. Depois de duas semanas entre hospitais e clínicas de análises, um eminente catedrático do Hospital Universitário deu-me esta terrível notícia: a úlcera tinha evoluído para um cancro no estômago. Segundo o especialista, deveríamos iniciar de imediato o tratamento, sem que a erradicação total do tumor fosse garantida. Profundamente abatido e atulhado de comprimidos para as dores, regressei a casa para a noite mais triste e ao mesmo tempo iluminada da minha vida.
 
Ali estava eu, pouco mais de trinta anos, ex-poeta, ex-jornalista, ex-tudo, solteiro, sem ninguém, face-a-face com uma doença potencialmente incurável, um obstáculo inadiável na minha aventura de acabar o “Nobre Estripador”. Quase chorei.
Pela noite escura e silenciosa, pensei muito sobre a minha vida e sobre tudo o que rejeitara para me tornar um grande escritor. Pensei nas manhãs que não vira nascer ou que não apreciara devidamente e nos entardeceres desperdiçados. Pensei no explendor das Primaveras que só sentira ao de leve, embatendo no vidro da janela e nos dias de Verão enfiado no escritório a martelar as teclas. Pensei nos lábios sedosos das mulheres que não beijara e em todos os cantos do Mundo que não conhecera.
No auge da minha angústia, posso-vos jurar que ouvi o som dos sapatinhos do filho que não tivera e vi ali, do outro lado da cama, aquela que poderia ter sido a minha mulher. Sorria. Era bela. Segredava-me belas frases que nenhum poeta alguma vez escreveu.
Desamparado e doente, senti também uma enorme raiva por todas aquelas coisas que os críticos tinham dito de mim sem me conhecerem e por todas as pessoas que passaram pelas livrarias muito ocupadas com as suas vidas, sem um certo tempo para arriscarem olhar sequer para a capa do meu livro de poemas – e era uma bela capa que tinha custado uma pipa de massa.
No topo da torre do meu desespero, passou-me pela cabeça saltar uma qualquer vedação de um qualquer jardim de subúrbio e aparar uma família desconhecida, da avó ao filho mais novo. Não esquecer o gato.
 
Depois acalmei-me. Inspirei fundo. Já era manhã cedo quando resolvi que não morreria sem acabar a minha grande obra incompreendida, intitulada “Nobre Estripador”. Lutaria contra a doença com todas as minhas energias. Custasse o que custasse, não me deixaria morrer sem que o meu romance fosse publicado e devidamente apreciado. Animado deste pensamento de esperança e força interior, adormeci. Para sempre.
 

Hugo V. Costa



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Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008
Mercado municipal
Fevereiro 15, 2008

No letreiro vermelho podia ler-se “ESPECIARIAS DO INFERNO”, e mais abaixo, em letras pequenas também desenhadas: “orgânicas”. Uma banca vitoriana de madeira antiga com cornucópias esculpidas e portinholas de vidro amarelo. Pendurados, sacos de búzios creme. Espalhados pela mesa, saquinhos e saquetas com pós verdes e castanhos e verdes com bulas agrafadas. “Mau olhado”, “Queira quem não me quer”, “Marido infiel”, “Bomba do Amor de Cacau”; e depois: “costas”, “rins”, “bexiga”. Uma hera de folhas verdes de bordas esbranquiçadas compunha o ramalhete e coroava a moldura viva.

Ficou parado a olhar durante algum tempo. Lá de dentro, do outro lado, saíram uns olhos azuis interessados.

- Amor eterno, querido? - disseram os cabelos louros, muito longos e que acabavam nuns tímidos caracóis.

- Desculpe?

- Amor eterno? - repetiram os olhos de um azul que o céu nunca vira.

Demorou algum tempo a pensar na resposta. O tempo suficiente para ver nascer nela um sorriso maternal. Um calor terno. Era estúpido mas a verdade é que não sabia o que dizer. Estava ali feito parvo, com uma nota na mão, sem falar. Só conseguia olhar para a mais bela rapariga que alguma vez tinha visto. Sentiu uma breve vertigem. Tentou recompor-se, apertando a nota com força.

Mirou-o de alto abaixo. Depois viu qualquer coisa e a expressão mudou para um ar sério, quase piedoso.

- Talvez problemas com a mulher... Tenho aquilo de que precisas, querido.

Desapareceu por breves instantes voltando com um pequeno pote de vidro que outrora deveria ter contido doce de amora.

- Aqui está... bálsamo de Gilead, directamente das arábias. Garantido para recuperar um coração destroçado.

Estendeu-lhe o frasco.

- Dez - disse a rapariga, ainda com o boião de vidro enlaçado pelos seus dedos longos.

Sem pestanejar, o rapaz encostou a bicicleta, entregou a nota e guardou o frasco na mochila.

- Obrigado - disse ele, procurando de novo aquecer-se no mesmo calor de há pouco. Tentando cruzar, por uma outra vez, os seus com aqueles olhos azuis que o tinham cativado. Já lá não estavam. Apenas um azul pálido, igual a tantos outros tons azulados.

Agarrou na bicicleta e desapareceu no meio da multidão.

- Amor eterno? - ainda ouviu num sumido atrás de si.

Uma fresca brisa aconchegava a azáfama matinal no velho mercado. Pela sombra suportada por pilares de ferro verde, caminhavam mulheres puxando saquinhos de rodas de tecido xadrez. Cheirava a café, sabia a pão e bolo de mel. Banca-sim-banca-não, o perfume dos morangos insinuava-se nos pescoços sedosos das passantes, em geral jovens de olhar mais frio que a manhã.

 

Hugo V. Costa



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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007
Sexta-feira louca
Dezembro 07, 2007

Lembras-te por certo do Sam. O Sam era aquele tipo que, sem se destacar em nada em particular, imprimia em tudo o que fazia uma segurança fora do comum. Não sendo interessante era o que a rapaziada qualificava de “tipo com interesse”. Bem, mas isso foi na Era de Todas as Faculdades, ou seja, há muito, muito tempo. Entretanto o Sam foi-se apagando. Foi submergindo a vontade num daqueles empregos que se dizem stressantes, numa empresa carregada de stress. Nessas empresas eles fazem tudo para combater o stress. Coisas que nem lembram ao stress. É assim que eles vivem no topo, entrincheirados na sua moral comercial, em torres de cimento vedadas à gente vulgar – o público, como eles chamam a pessoas como eu e tu.

Soube desta história não pelo Sam mas por alguém que, tal como nós, conheceu o Sam faz muito tempo. Foi ele quem me a contou, assim como a história das outras personagens desta história que no fundo não é uma história, de tão corriqueira que é. Passa-se todos os dias, quer o Sam esteja a trabalhar ou tenha pedido para sair mais cedo, como foi o caso, naquele dia.
Quem visse o Sam caminhar pela rua naquela sexta ou noutra sexta-feira qualquer, veria apenas um nadinha mais além do desfilar confiante de um bom fato azul escuro corrompendo a multidão de fatiota barata e sonhos amarrotados. Os pais do Sam sempre fizeram questão de não olhar a despesas para que o Sam se tornasse “um rapaz apresentável” – sem dúvida mais interessante do que ser “um tipo interessante” ou “com interesse” – e com isso garantir que, numa sexta-feira ou num outro dia do futuro, o Sam não fosse “só mais um”, mas um dos socialmente eleitos, aptos e bem sucedidos.
Tinha chegado a um bom nível, o nosso Samuel - o Sam. Um bom emprego, um estatuto vincado num fato de bom corte e um sorriso branquinho, como o colarinho da camisa italiana. Os olhos brilhavam, acompanhando o ideal de respeitabilidade que trazia ao pulso na forma dum relógio maciço – daqueles que sabem distinguir compromissos e a forma de os contornar – e, é certo, na inevitável aliança.
Tu conheces a mulher do Sam. Já a viste, de certeza. Não é só uma mulher, é  uma brasa daquelas. Uma beleza em movimento, cativante, presa apenas da ideia exagerada que tem de sim mesma e que não deixa de ser verdadeira, de tão democrática – corresponde exactamente à nossa, a da grande massa para a qual a mulher do Sam é uma miragem inacessível, apenas disponível em sonhos que não nos são permitidos sonhar. Sabes bem do que falo.
Seria consensual a opinião dos membros do clube de viventes da Era de Todas as Faculdades: só mesmo o Sam para apanhar um avião daqueles. As saudosas noites de farra em que tu e eu gastávamos a mesada em bebida barata até altas horas, o Sam passava-as nos clubes onde param as meninas bem comportadas. Sim, porque a mulher do Sam vem da alta. E foi na alta que o Sam se estabeleceu. Na alta-roda, com um apartamento na alta da cidade.
O Sam tinha tudo para vencer e venceu com tudo o que tinha. Além disso, quase ficou com o que não queria. Por exemplo, a Rita. Essa não conheces de certeza. Mas conheces o género. Contaram-me que a Rita fez a vida negra ao Sam durante uns tempos. Pois, a velha história. Não percebeu que aqueles encontros com o Sam não passavam de um devaneio provisório, sem consequências demoradas. O Sam andava um bocado, digamos, fora de si, naquela altura. Quando o bébé nasceu, toda a gente vaticinou para a Marta – a mulher do Sam – o final trágico dos seus encantos. Perderia com toda a certeza a definição nas formas e cederia a um destino flácido e desinteressante, o Mundo e ela girando em volta da bebé. Isso torná-la-ia inevitavelmente menos apta aos olhos do Sagrado Matrimónio com o Sam. Durante uns tempos até eu acreditei que isso fosse possível – a fatalidade é convicta, até mesmo para os mais belos e endinheirados. Mas não. A beleza móvel voltou a desfilar passados seis meses. Tão colorida e radiante, como se nem ao de leve uma pena de colibri tivesse ousado tocá-la. Isso não apagou os quase 10 meses que durou a relação do marido com a Rita do escritório. Sabes como é o Sam, sempre ligado às coisas do coração. Bem, mas isso já lá vai. A Rita passou à história, perdida em comentários maldosos no intervalo para o café. Sabes como eles se divertem nesses empregos de stress.
O Sam nesse dia estava decidido a relaxar de uma semana desgastante e, como Sams e não-Sams fazem no horário de expediente – e na rara centelha de liberdade que as suas franjas permitem – dirigiu-se aquele jardim que fica no meio da cidade e que tu e eu bem conhecemos – costumávamos passar por lá quando não arranjávamos boleia e tínhamos de ir a pé porque o metro estava fechado. Naquele jardim, naquele dia, o Sam sentou-se num dos bancos e esperou.
Lá dentro, isto é, no velho apartamento que fica em frente ao jardim onde os velhos jogam às cartas e os miúdos se põem em bicos de pés para sorver do bebedouro onde alguém mijou na noite anterior, o Sam conheceu por ordem de entrada em cena nesta história e numa sala forrada a cortinas carmim: a Diana, a Xana, a Sandra, a Sofia e a Lara. As jovens belezas vulgares na sua inconsciência, deram uma volta e o Sam ficou a vê-las desaparecer pela mesma porta onde tinham entrado, eclipsando-se num meneio de maus costumes e lingerie. Depois o Sam ficou em silêncio e uma mulher mais velha de lábios berrantes interrompeu: “então querido, já escolheste?”. O Sam escolheu. Nem meia hora depois estava de volta aquele jardim, envolto numa nuvem preguiçosa, pairando sobre um céu de um azul ingénuo que abria as hostilidades de fim de tarde na grande cidade. De volta ao burburinho mecânico do escritório social, um Sam mais bem-disposto, de olho reluzente e sorriso enigmático, tratou de uns assuntos que precisavam ser tratados antes de segunda-feira e deu por finda mais uma semana produtiva.
O apartamento situado no 1º andar do prédio que olhava há quarenta anos para o mesmo jardim triste e desabitado, dividia-se em três quartos, uma sala, uma cozinha e duas pequenas casas de banho. Cada quarto possuía uma cama e lençóis, uma mesinha de cabeceira e um espelho gasto procurando em vão as imagens embaciadas dos seus ocupantes ocasionais. Apesar do ambiente quezilento que pairava naquela casa, que se refugiava da claridade do Mundo sério em cortinas carmim que raramente se abriam, a Lara e a Sofia eram as últimas raparigas que ainda conversavam. Todas as outras se odiavam umas às outras, ora porque os melhores clientes escolhiam sempre a Diana ora porque a Xana tinha ameaçado a Sandra com um copo de água. Imagine-se, um copo de água! Mas o copo estava partido e a Xana queria mesmo espetá-lo no olho da Sandra e tudo por causa de um mulatinho sem importância. A verdade é que a Xana estava apaixonada e não concebia a ideia de que o mulatinho apenas se queria divertir. A rapariga sonhava já em casar e abrir um pequeno restaurante, porque o que a Xana gostava mesmo era de fazer mini-pratos.
Naquela sexta-feira preguiçosa tudo estava calmo. Um tipo alto e bem vestido – um habitual com o hábito das sextas-feiras – tinha sido o primeiro e único cliente da tarde. Uma quente tarde de Julho. Ou seria Agosto? Talvez estivesse para vir o primeiro fim-de-semana de Agosto e todos os tipos casados fossem de férias com as suas caras-metade – as legítimas e as outras – enfiados em espaçosos volumes com rodas, embalados em quinta pelas estradas de planície. Por isso, talvez essa sexta-feira ameaçasse prolongar pela noite fora o movimento dolente das meninas chupando rebuçados de mentol, cruzando e descruzando as pernas pela batuta dos intervalos publicitários. Talvez um ou dois universitários com dinheiro para estourar perturbassem a placidez daquela sala em silêncio. Nada de mais.
Sofia não se lembrava se era Julho ou Agosto, mas Lara concordava que era sexta-feira pois faltavam apenas umas horas para o fim-de-semana. Estava cheia de calor. Era a única que já tinha trabalhado nesse dia. Estava preocupada porque a dada altura tinha tido a sensação de que o tipo se tinha vindo dentro dela. Mas as mulheres sabem destas coisas e a Sofia apaziguava-lhe os receios. Era uma sensação comum, o risco da profissão. Talvez tivesse imaginado. Afinal estava tanto calor. As pessoas nem pensam com este calor. Apesar do incidente, a Lara não podia deixar de estar contente. Finalmente, o namorado tinha decidido mudar-se para sua casa. Toda a vida a Lara tinha tido muito azar. Uma filha de 8 anos não ajudava a manter casos. Mas o Joca era diferente. Era um tipo às direitas, trabalhador, verdadeiro e a Lara tinha a certeza das suas intenções. ‘Que é isso menina? Nem pensar. Ele julga que eu trabalho numa dentista’. A Diana metia-se na conversa. Estava entediada porque as outras viam uma novela e a Diana detestava novelas. Mas estava tanto calor que não se conseguia pensar, nem para ver uma novela.
O Joca foi buscar a menina. Célia, era o nome da menina. A Célia até gostava que o Joca a fosse buscar. Estava farta que os coleguinhas lhe perguntassem pelo pai. Por isso a Célia saltitava até aos braços de Joca que a agarrava com muito amor. Depois iam ambos de mão dada e ele sentava a menina no banco da frente, se ela se portasse bem. O Joca tinha um carro velho que concertara mas cujo dono nunca reclamara de volta. O carro tinha uns cintos de segurança antigos e antipáticos que custavam muito a encaixar. Sempre que o mecânico ia buscar a menina era um problema para colocar o cinto e ajustá-lo bem no peito da menina, não fosse o caso do Joca ter que fazer uma travagem brusca e a menina bater com a cabecita no tablier. A menina tinha uma carinha adorável e uns lábios bem vermelhinhos. Quando crescesse ia ser uma “top-model”. O Joca não se cansava de lhe dizer isso, sempre que estavam sós, no quarto, enquanto a mamã não chegava. Depois ele ia só ali abaixo ao café comprar tabaco, mas demorava-se sempre um bocadinho mais do que dizia, deixando a menina sozinha e confusa.
O Joca chegava ao café e ficava na conversa com o sr. António e os outros homens dispersos pelo balcão, ou esquecidos em mesas saudosistas. Falavam sobre futebol e sobretudo nesse dia falaram das malditas obras que a câmara estava a fazer, mesmo em frente ao parque infantil. ‘Coitados dos miúdos que já não podem brincar à vontade sem o risco de lhes cair um andaime em cima’, dizia o Joca. ‘A polícia devia era fechar o parque ou mudá-lo provisoriamente’. O sr. António não percebia muito bem o interesse do Joca no parque infantil, mas não deixava de dar acaloradamente a sua opinião sobre esse e outros assuntos do bairro, como a vida do ‘larilas’ do prédio em frente. O senhor António, sabia bem em que vidas andava ‘aquilo’ metido, porque o senhor António já o tinha topado a sair de casa todo pintado lá pela onze, quando fechava o café. Parecia uma ‘puta de ombros largos’. Da primeira vez que o viu nem o reconheceu mas o tipo fez questão de o cumprimentar. A lata do tipo. Uma tristeza ambulante.
Nessa noite, como nas outras noites, uma mulher muito alta e muito pintada mergulhou nas sombras da velha e estreita rua do café do sr. António, em direcção à piscina de luzes amareladas que submergia a parte baixa da cidade. Ali encontrou outras mulheres muito altas e corpulentas que brilhavam como faróis na noite baça. Ficaram conversando junto à paragem do autocarro, como se esperassem a passagem de um deles. No entanto, como tu sabes, naquela zona os autocarros não passam aquela hora. Isso não faz daquela parte da cidade uma zona deserta. Pelo contrário, é a partir daquela hora que passa a ter mais movimento.
Um carro negro como a noite escura, parou num sinal vermelho.  Lá dentro, ia uma mulher muito bonita, conduzida por um homem de feições vagamente familiares. O homem olhou para as mulheres altas que esperavam na paragem. Franziu o sobrolho e depois sorriu, trocando um comentário trocista com a beleza pura sentada a seu lado, demasiado ansiosa para rir de volta. Nunca se tinha atrasado tanto. ‘O Sam’, pensava. E o vermelho desfez-se num laranja intermitente e a beleza desfez o pensamento e o carro arrancou, levando os seus ocupantes pelo centro da cidade, rumo às suas vidas premeditadas.
Era quase meia-noite. Os estudantes regressavam aos seus quartos de adolescente esperando impacientes um Domingo em família, demasiado longínquo para ser tolerado. Os que ficavam na cidade divertiam-se pelos bares, abordando as raparigas mais bonitas ou aquelas que lhes garantiam mais possibilidades futuras. Nas zonas comerciais, os escritórios eram limpos por mulheres africanas de grande porte e os grandes negócios repousavam em cima da mesa, à espera de serem fechados segunda-feira de manhã. Pela grande cintura de prédios envolvendo a metrópole que agora se divertia com vinho e cerveja e jantares demorados entre amigos, luzes amarelas e brancas desafiavam a escuridão do céu dos dormitórios, acendendo e apagando, para revelar uma insónia, um filme que demorava a acabar, um copo de leite, uma peça de roupa por estender numa janela quadrada, como tantas outras. Depois da primeira cintura de asteróides suburbanos, há uma segunda e uma terceira. O grau de sofisticação da loucura fugaz que celebra o fim da semana, rarefaz-se à medida que os néons se afastam e se penetra no interior, deserto, insuficientemente ambicioso para a vontade de celebrar. De volta à grande metrópole, os seus bravos conquistadores perpetuavam agora um desejo eufórico de prolongar pela eternidade aquelas quarenta e oito horas que separavam uma sexta-feira louca de uma nova semana em que tudo voltaria à normalidade.
Esta história foi-me contada por aquele que tudo vê mas que ninguém vê. Que mais me contou quem tudo sabe sobre aquela sexta-feira? Bem, aquele que vê melhor que todos nós contou-me que viu o homem de feições familiares regressar à paragem de autocarro, chamar uma das mulheres altas e desaparecer com ela por becos e ruelas de segunda. Viu também um pobre mecânico de automóveis enxaguar as lágrimas junto à sua namorada, ainda sem saber porque chorara. Olhou para uma mulher rejeitada rejeitando o homem que a amava, não conseguindo perdoar quem não a quis. Ouviu o sono de beleza de uma menina demasiado inocente para perceber o feio coração dos adultos e... espera, que é feito do Sam? O nosso Sam adormeceu no sofá que nem um anjo, ao lado da sua pequena princesa. Foi acordado pelo belo sorriso de Marta, que naquela sexta chegava um pouquinho atrasada. A família deitou-se na grande cama de madeira maciça e lençóis de seda e adormeceu, quieta, a salvo da grande cidade que matutava lá fora na sua própria indefinição.
 

Hugo V. Costa



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