Quarta-feira, 19 de Março de 2008
Uma lágrima na Bica
Março 19, 2008
Se desejares com força poderás sempre esquecer uma coisa. Mas se desejares ainda com mais força não poderás nunca fazer com que não tenha acontecido. Mas será este o tempo verbal? Será esta a conjugação correcta? Careço de explicações pois o português nunca foi o meu forte. Em tudo o resto fui fraco. Mas uma coisa eu sei. Julgo que sei. Estes pensamentos levam-nos sempre ao ponto de partida. Ao local onde tudo começou. Onde tudo sempre começa. E onde me encontro agora. São 23 horas e mais alguns minutos que me custa a precisar. Está uma noite clara e quente, mas a minha pele está arrepiada como se respondesse a um primeiro toque. As primeiras vezes são sempre assim. Indecisas. Talvez de arrepiar, embora não saiba se é este o adjectivo ou a forma correcta de o dizer. O que sei é que acabo de entrar. O número que o cume da porta me diz está certo. Julgo que está. E não seria outro se tudo fosse de outra maneira. Também sei que está calor, muito calor. E que hoje me torno assassino. Sim, assassino. Aquele que mata. Aquele que decide. Sorrio ao pedir uma cerveja. Franzo um olho ao bebê-la. Está morta. Os dois seres de nojo que estão à minha frente ainda não. Ele, baixo como de vergonha. Ela, loira como nunca fora. Nem se o tivesse desejado muito.
No tecto, uma mosca desafia a sua curta existência, mas, astuta escapa ao crematório rumo à noite, pouco menos quente. No chão, com os seus pés inchados, o casal desencontra-se nas conversas, contrariando a provável ironia de se terem cruzado um dia na velha Calçada da Bica. Consigo imaginá-los, como pequenos fragmentos de um filme errático. Um a descer e o outro a subir. Podia ser o contrário. Riem-se de desdém. Um do outro. E eu de ambos.
Passo o dedo pela garrafa e sinto-me já em sintonia com a espelunca. Sujo. Peço outra cerveja e olho para a televisão que vomita banalidades. Uma retrospectiva do Elvis, julgo. "Only You". Sempre odiei o Elvis. Mas não só ele. A loira falsa que se comove agora também odeio. Parece-me menos feia assim que uma lágrima ameaça brotar-lhe dos olhos. É o fim. É o início. Aconchego o revólver em segunda mão nas calças. Será simples como uma inevitabilidade. Custará apenas o segundo em que se tornará num facto. Eu mato, tu matas, ele mata, nós morremos, vós morreis, eles morrem. Penso que se conjuga assim. Será assim? Para mais ela canta. E ele ri de gozo, as faces avermelhadas. O porco. Tiro o revólver devagar. Tremo ligeiramente. Não está ninguém em redor. O bar está vazio. O bar está sempre vazio. E cheira a podre. Ou a morte. Talvez seja de mim.
Puxo o cão atrás e sinto uma ténue comoção. Continuo arrepiado. Ela canta emocionada... "Only You". Julgo que se está a rir para mim quando o cano do revólver risca a barriga do balcão. Eu devolvo-lhe o sorriso. Quase cúmplice. Não. Cúmplice de verdade. Porventura pela primeira vez na vida. O sabor que navega na minha boca é agridoce. Pergunto-me se será sempre assim. Como se pudesse ser de outra maneira. Não juro, mas penso que a mosca voltou a entrar. Procurará o crematório no tecto? Estaria a noite ainda mais quente lá fora?
Fecho os olhos em contracção. Ou julgo cerrá-los. Podes obrigar alguém a fechar os olhos, mas ninguém a dormir. Estou acordado. E o tempo já quase se mastiga. Que horas serão? Nada mais será como dantes. Como se fizesse diferença. Como se tivesse um porquê. Como se não fosse tudo o mesmo. Abro-os agora, aos olhos. E vejo tudo em pormenor. Estou sentado. Primeira fila sobre o balcão. E são 00h00. Gosto de sessões que comecem a horas certas. Tudo se passa em tempo real. Presente do indicativo? Posso ver tudo. Sou aquele que tudo decide. Tenho sede.
- Mais uma cervejo... - avança o anão vermelho. E eu pergunto-me se ele teria dito cervejola caso o disparo à queima roupa não o tivesse interrompido. Penso que sim. Cervejola. Mas a bala atinge-o em cheio na têmpora. E o vermelho que jorra dela cai-lhe como um lenço demasiado garrido. A música é agora dos Beatles. Sempre odiei os Beatles. "All we need is love". Ridículo, não?
Se pudesse condensar aquela fracção de segundo diria que o meu maior desejo seria assassinar a Humanidade inteira naquele disparo. Ou amá-la como um todo. Faria diferença se pudesse ser de outra maneira? Podes obrigar alguém a estar contigo, mas ninguém a amar-te. Ele derruba agora as prateleiras de vinho rasco e cai. Ela? Ela olha para mim, ainda comovida pelo Paul McCartney e demais farsantes. Não parece sequer assustada. Uma lágrima cai-lhe porém das faces gordas. Talvez os tenha amado na juventude e puxado os cabelos que nunca foram tão loiros como hoje. Sobre ela disparo duas vezes. Falho o primeiro. Não o segundo. Ela tropeça e agarra a garganta. Quase parece sorrir, mas talvez fosse do choro, nunca percebi a diferença. A lágrima, essa, sei que é a mesma. Única. Gostava de a lamber para saber se é agridoce. Se é este o sabor da primeira vez. E se pode haver outro sabor a partir de agora que tudo mudou. O pudor impede-me. Silêncio agora, apetece-me gritar! A televisão não o respeita. Apetece-me fuzilá-la, sem mais. Mas é uma boa televisão. Deve ter sido cara.
Estou tentado a dizer que fecho os olhos neste instante. Mas estou a abri-los ao ouvir o tsss da mosca a arder no crematório. Fará diferença? A televisão continua a falar dos grandes ícones da música. Elvis; Beatles. Sei lá que mais. Odeio todos. Quase tanto como o casal de nojo defronte mim. São 00h00. Mas poderia ser outra hora qualquer de um outro dia qualquer. A cerveja ainda está morta nas minhas mãos. O casal de nojo não. Mas será esse o tempo verbal? A conjugação correcta? Se desejares com força podes esquecer uma coisa. Mas se desejares ainda com mais força não poderás fazer com que não venha a acontecer.
- Mais uma cerveja - peço, cúmplice, para o casal. Tremo ainda. Está calor.
- Uma cervejola gelada? - pergunta o anão a rebentar de rubro e com um esgar de riso nos lábios, enquanto ela ajeita o cabelo loiro e de raízes negras, talvez para seduzir o Elvis. Limpa a lágrima com um lenço. Imundo.
- Não, morta - respondo. Como se pudesse ser outra coisa.


Jorge Flores

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Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008
Nuvem fortuita
Janeiro 31, 2008
O voo estava atrasado. Demasiado atrasado para uma viagem cujo destino era o resto da vida. Mas a culpa não habitava a cabeça de Heitor. Essa ainda não parara desde o despertar naquela madrugada, algures num hotel de duas estrelas, nos arredores mais rasteiros de Madrid. Não parara desde o momento em que afastou o cabelo, ruivo sangue, do rosto da jovem que dormira a seu lado e esta o encarou, meio surpresa meio sonolenta, e lhe pediu um minuto. Heitor não o tinha, mas deu-o na mesma. Deu até mais. Haverá algo mais fácil de dar do que algo que não é nunca nosso? Foi em correria que apanharam um táxi para o  aeroporto. Na sua mente ressacada, tudo girava simultaneamente com as jantes do velho Mercedes que os transportava. Tudo corria ao segundo. Os milésimos bem definidos apesar da visão turva ainda. O passo apressado, raio X adentro, bizarro escrutínio fronteiriço, que dizem tudo ver, mas que não vai além do esqueleto. Como eram parecidos os dois, de resto, no monitor do aeroporto.
Já sentados, os corpos depositados e os ponteiros suspensos. Aquilo não era tempo. Era o seu contrário. Cintos de segurança ao nível das ancas até que a luz se apagasse. E agora? O agora não passa de uma antecâmara do futuro. E este tardava. Fazia duas horas que o comandante do voo TAP 743, com destino a Lisboa, anunciara um ligeiro atraso de quinze minutos em várias línguas. Todas elas indecifráveis. Congestionamento de tráfego numa pista deserta. Quinze minutos, ele dissera. Isso juraria Heitor ter percebido. Metade do tempo que demoraria a viagem. E agora? Agora o atraso mais parecia ser-lhe destinado. Quanto mais pensava no regresso, mais o voo atrasava. Perder tempo ali sentado era como ganhá-lo ao levantar-se. Tudo o que é fortuito dispensa a espera. E tudo o que se espera não passa de algo fortuito. E dispensável. E agora? Agora esperava-se ainda. Haveria toalhetes com aroma a flores silvestres? Canapés de presunto com queijo e miniaturas de pastéis de nata? Café? Chá? Rebuçados de mentol? Bolinhas de neve? Haveria amendoins com piri-piri? Sem sal? Com extra-sal? As revistas da semana? Os jornais do dia? Sem tempo? Com extra-tempo?
A seu lado, dois olhos curiosos e ligeiramente azuis na sua timidez, cumpriam a sua função e olhavam-no. Não faltaria muito para que falassem. E falaram. E agora? - poderiam ter dito. Mas não disseram.
- Em que pensas? - foi o que perguntaram por perguntar, traindo-se...
- Em nada... foi o que responderam os de Heitor por responder, ocupados que estavam a ver, pela janela meio encoberta, o gelo que caía na pista.
Pensou que devia sorrir para cumprir o esperado, mas conteve-se. Havia qualquer coisa de equívoco na retina do olhar de ambos. E na língua que não partilhavam mais do que o suficiente para calar alguns substantivos a propósito e gritar alguns verbos completamente fora de contexto.
- O que estás lendo? - quis ela saber do livro que segurava. As mãos pequenas e suadas e o castelhano insuficiente para ir além da brevidade do título. "Enquanto elas dormem", tradução portuguesa do madrileno Javier Marías. Haveria ali tema de conversa. Mas Heitor apenas pensou nisso, enquanto sorria, sem saber que sorria. Cortesia efémera. Fortuita. Que nada espera. E agora?
Súbita não seria, mas antes tardiamente, o piloto beijou o intercomunicador para dizer que a pista estava livre. Partiriam imediatamente. Imediatamente, ele dissera. Heitor olhou em frente e pareceu-lhe ver outros aviões na pista. Como se nada ou ninguém conseguisse voar a solo. Ou partir sem ter ninguém à espera.
Não demorou sequer uns falíveis quinze minutos até ambos serem apertados contra os bancos e sentirem uma ténue comunhão. Uma partilha breve daquilo que não está nas nossas mãos. Mas que não deixamos de as colocar nas de alguém em quem também não acreditamos. E numa golfada de respiração, num sopro mal medido de tempo, o regresso começou a remeter o passado para o seu tamanho real. Para o tamanho de tudo o que minguava, minguava lá em baixo. Num todo que era já um completo nada. E agora? Agora Heitor contemplava a vista gelada, lá fora, enquanto ela dormia. Enquanto elas dormiam, os sonhos nunca seriam os dele. O céu estava azul. Demasiado azul para o resto dos dias. A viagem e o azul, esses, demorariam um fogacho. Fortuitos no seu desvanecimento, na sua subida para o branco. Tudo era bonito e opaco. Mas pairava no ar um vazio que as nuvens não preenchiam.


Jorge Flores





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