Segunda-feira, 21 de Abril de 2008
Uma questão de fé
Abril 21, 2008

A partir de uma ideia de Seymour

 
O telemóvel agitava-se numa vibração nervosa e estridente em cima da mesa-de-cabeceira, antes de começar a soar uma música em notas roufenhas. Sentada na cama, com o tronco envolvido até pouco acima do peito pelo lençol entalado entre os dois braços nus que despontavam do tecido branco, M suspirou e olhou impaciente para o aparelho enquanto dava uma baforada lenta e prolongada no cigarro.
«Não atendes? – perguntou-lhe uma voz masculina». M fez um ar aborrecido e olhou para as imagens em movimento na televisão situada no móvel aos pés da cama. «Não – respondeu sem encarar o homem a seu lado – Não me apetece». Ele permaneceu indiferente. Costas apoiadas na almofada, peito descoberto, perna esquerda dobrada em arco por fora do lençol. Fumava compassadamente imprimindo ao cigarro um movimento pendular entre a boca e o cinzeiro depositado na perna por cima do lençol. «Ao menos podias escolher outra música – soltou desinteressadamente sem despregar os olhos da televisão».
- Porquê? Não gostas?
Ele prolongou o silêncio antes da resposta.
- Não é isso. Não gosto do som.
- Mas quê? Não gostas desta música?
- A música é-me indiferente. Irrita-me esse som.
O telemóvel apitou, acendendo-se a luz do visor no anúncio a uma nova mensagem. M espreitou na direcção do aparelho. Com um ar maçado, inclinou-se sobre a mesa-de-cabeceira, segurando o lençol sobre o peito com a mão esquerda e arrastando-o consigo. O homem percebeu o deslizamento do cinzeiro e agarrou-o antes de cair. «Hei! Cuidado! – protestou com vigor – Vê o que fazes…»
Ela ignorou-o no retorno à posição inicial com as costas coladas na almofada. «Ias fazendo cair isto tudo… – reclamava ainda – Se não fosse eu». Com o telemóvel levantado à altura do rosto, ela lançou-lhe um desinteressado olhar de relance, retomando a atenção ao aparelho. Leu: < Tem uma nova mensagem >. Conduziu-se à “Caixa de Entrada” e escolheu a opção “Ler”.
< Liga precisamos falar>.
M deixou cair a mão sobre a cama, junto à perna, e suspirou. Manteve-se estática por instantes, olhando em redor as paredes nuas de cor clara, e pensou que o quarto tinha falta de alguma cor e identidade. Talvez uns quadros ficassem bem. Distraidamente, puxou um cigarro de dentro do maço e pediu-lhe lume. O homem continuou sem despregar as pupilas da televisão. Num movimento desatento, acendeu-lhe o isqueiro em frente da cara. Ela inclinou-se para a chama, ateando o cigarro. Virou-se para ele e observou-lhe atentamente o peito peludo e os braços nus. Permanecia inerte, com o corpo descaído sobre o lado esquerdo e mantinha a perna de fora do lençol. A televisão projectava grupos de jovens de cores vivas e movimentos ritmados acompanhados de música pop.
«Importas-te de baixar o som da televisão? – questionou reticente – Preciso de fazer um telefonema.» Ele não lhe respondeu. Conduziu a mão ao telecomando e pressionou uma tecla. M escutou o som a ficar cada vez mais distante enquanto observava no ecrã a linha de rectângulos verdes em desaparecimento, ao lado de um triângulo da mesma cor. «Obrigado – disse, ao mesmo tempo que dava uma passa». Levantou-se da cama e dirigiu-se para um canto do quarto próximo da janela. Olhou para fora e franziu a testa perante a chuva oblíqua que o vento atirava contra as vidraças.
Seleccionou um número da lista telefónica e pressionou o botão de chamada. Com o telemóvel colado na orelha escutou o sinal, até ouvir uma voz do outro lado.
- Sim… Sou eu. O que é que se passa?
- Sim? O que é que achas? Claro que não pude. Não posso estar sempre ao lado do telemóvel à espera que telefones.
- Não sei se sabes, estou a trabalhar. Achas que não tenho nada para fazer?
- Sê razoável… Porta-te como um adulto.
- Diz-me o que é que se passa, que eu tenho de voltar lá para dentro. Estou numa reunião.
Aproximou-se da cama e fez-lhe sinal a pedir o cinzeiro. Ele passou-lho para a mão e ergueu-se mudo da cama. Ficou a ver-lhe o corpo nu rumar em passos sólidos para a casa de banho. «Não… Já te disse. Hoje não posso. Não sei a que horas saio». Ela deixou-se ficar. Girou sobre o joelho apoiado na borda da cama e acabou por se sentar.
- Não sei. Já te disse que não sei!
- Não posso ser sempre eu a fazer tudo. Não posso continuar assim! Não posso!
- Não sei… Já disse! Talvez por volta das sete e meia, oito… Depende das horas a que acabe a reunião. Depois, ainda tenho de tratar de uns documentos... Por isso, não sei…
Cobriu o bocal do telemóvel para esconder os sons que vinham da casa de banho. Quando ele reapareceu no quarto, fez-lhe sinais inquietos para fechar a porta. «Está bem… Já sei… Tens de passar por lá, no máximo às seis e meia».
Ele sentou-se ao lado dela, precipitando-lhe a saída. Ergueu-se de imediato, como se a cama fosse demasiado pequena para os dois, e ele acompanhou-lhe os movimentos do corpo nu em direcção à janela.
- Tá. Já sei. Não te esqueças.
- Tá. Até logo.
Deixou cair o braço ao longo do corpo nu, mal desligou. «Pfffffff – soprou longamente – Estou tão farta disto!» Desabafou, enquanto lançava a mão esquerda de encontro à cabeça, como se lhe doesse fortemente. Ele continuava a fitá-la. Acompanhou-lhe os passos até junto da mesa-de-cabeceira, onde despejou o telemóvel. «Preciso de um cigarro! Preciso mesmo de um cigarro. Desesperadamente… – deitou para trás a cabeça, prolongando os queixumes».
Lançou-se com os joelhos sobre a cama. «Arranja-me um cigarro! Depressa…» Os olhos dele prenderam-se nas curvas do corpo dela. Num gesto automático, procurou o maço ao lado da cama e puxou de dois cigarros e o isqueiro. Guardou um na mão e colocou o outro entre os lábios dela. Puxou do isqueiro e acendeu ambos. Ela deu uma baforada longa como se carecesse disso para sobreviver. «Estava mesmo a precisar disto.»
- Era o teu marido?
- O quê?
- Se era o teu marido?
- O que é que achas?
O homem não disse mais nada. Empunhou o comando na direcção do televisor, dando vida aos rectângulos verdes que logo recomeçaram a aparecer no ecrã. A música voltou a ouvir-se enquanto os jovens se agitavam. M não os escutava. Fumava ritmadamente, dando passas sucessivas sem interrupção. Suspirou longamente. «Há momentos em que não sei o que fazer – soltou – Estou tão cansada...» E aspirou o fumo com ansiedade.
Ele mirou-a de relance, de lado, sem mover a cabeça. «Se fosse comigo não te portavas assim.»
- O quê?
- Se fosse comigo não te portavas assim.
- Não chateies.
- A sério… Podes ter a certeza...
- Cala-te! Estás a enervar-me.
- Podes ter a certeza...
- Olha lá! Que moral é que tu tens para me estar a chatear? Estás aqui na cama comigo...
- Eu pelo menos não sou casado... – tinha uma expressão de gozo estampada no rosto.
Sentiu-se irritada. «Cala-te! Não me chateies!»
Viu-o rir-se e apagar o cigarro no cinzeiro sobre a mesa-de-cabeceira. Sentiu-se ainda mais irritada. «Vai-te foder!»
Ele voltou-se brusco para ela. Agarrou-lhe os pulsos com força. Ela foi incapaz de reagir. Sentiu-se doer. Ele torceu-a, obrigando-a a tombar e prendeu-lhe os dois braços de encontro à cama. Mordeu-lhe o pescoço. Sentia-lhe as curvas do corpo. A suavidade da pele. Sentia-lhe o perfume intenso.
«Sinto-me estúpida.» M estava caída de bruços na cama, rosto enterrado na almofada e as palavras soaram distantes, abafadas pelo tecido.
- O quê?
- Sinto-me estúpida…
- Vai tomar banho… Isso passa.
Ele fumava.
- Há momentos em que me sinto tão sozinha…
Olhou-a de relance e viu a massa de cabelos espalhados pela amofada. «Estás a desculpar-te por estar aqui comigo?»
- Não. Não me estou a desculpar de nada. Não preciso disso. Não preciso de desculpas. Estou a falar do que sinto…
- Tens um filho, um marido… Até tens um amante… Não sei do que te queixas...
M ergueu-se bruscamente sobre o cotovelo esquerdo. «Ah! Ah! Ah! – soltou irónica – Não gozes…»
- Não estou a gozar... – levou o cigarro à boca – Estava a falar muito a sério.
- Não acreditas que chego a casa e sinto-me só?
- Acredito...
- Apesar de tudo... Até mesmo apesar do meu filho... Tu sabes como eu gosto do meu filho!
- Às vezes não parece...
Atirou-lhe uma almofada irritada. «Cala-te! Não me chateies!» Ergueu-se da cama em direcção à casa de banho.
Ele gritou. «Não precisas de um homem!»
Recebeu de volta um grito dela. «O quê?» E viu-a reaparecer nua na porta da casa de banho.
- Estou a dizer que não precisas de um marido. Acho que nem mesmo precisas de um filho. Precisas de um Deus.
«O quê? O que é que estás para aí a dizer?» Voltou-se para dentro sem esperar a resposta, deixando-o ficar ainda sobre a cama, a fumar compassadamente e a ver televisão. Gritou mais uma vez. «Estava a dizer que não é uma questão de companhia. É uma questão de fé. A solidão faz parte da dimensão humana. Não a contrarias por estares com mais pessoas, mas sim por encontrares sentido...» Escutou-lhe a voz distante e abafada. «Não oiço nada!» Na televisão, continuava a sucessão de vídeoclips, a que assistiu impávido, acompanhado por cigarros.
Ela não demorou a regressar, enrolada numa toalha branca que logo deixou cair sobre a carpete. «O que é que estavas a dizer?»
- Nada...
- Pareceu-me ouvir qualquer coisa sobre as pessoas e solidão... e mais não sei quê...
- Não era nada...
Ficou a observá-la a vestir-se apressadamente. «Já é tão tarde!»
- Sempre gostei de ver mulheres a vestirem-se.
- Ai é? Que bom para ti...
- Sim... Mas deixa-me dizer-te que a tua pressa não te torna das mais interessantes...
- Obrigado! Eis o elogio que e estava a precisar antes de sair daqui.
- Não foi por mal...
M compôs as longas meias, puxando-as por debaixo da saia, e regressou para a frente do espelho da casa de banho, para retocar o batom. «Bem, tenho de ir... Estou super-atrasada...»
- Olha! Estou sem dinheiro...
Irritada, ela puxou a carteira de dentro da mala, abriu-a e atirou três notas para cima de cama.
À saída, fez a porta bater com força por detrás dela.
O ar frio de um fim de tarde de Novembro encontrou-a já com um comprido casaco de Inverno em cima do passeio molhado. Um frio cortante queimava-lhe a cara. Sentiu-se intimidada pela escuridão da noite. À distância, abriu o carro com o comando automático. Sentou-se e ligou o aquecimento. Estava gelada.
Ligou o motor depois de uma pausa prolongada e conduziu-se devagar por alamedas e ruas escuras e discretas. Os minutos passavam. Mas já estava a ficar habituada à temperatura tépida do interior do veículo.
Devolveu-se ao frio à porta de casa, depois de ter usado o batom. Compôs a roupa e vestiu o casaco comprido. Guiou os passos em direcção a casa. Girou duas vezes a chave na fechadura antes de a porta se abrir. Achou estranho que estivesse trancada. Pousou as chaves e a mala no móvel do hall e pendurou o casaco no cabide da entrada. «Querido! Já cheguei.» O aviso prolongou-se sem resposta no silêncio das paredes. Prosseguiu devagar até à luz acesa da sala. A televisão estava apagada. Percorreu as várias divisões sem encontrar eco dos seus avisos. Até que rumou ao seu próprio quarto. Abriu a porta e acendeu a luz distraidamente. Era impossível não reparar. Em cima da cama estava um balão verde cheio de ar. Sentou-se na beira do colchão e debruçou-se lentamente para ele, puxando-o até ela. Ficou assim. Sentada quieta a olhar para um ponto indefinido da parede, com o balão na mãos e apertado contra o peito.
 
J.P. Limão

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Segunda-feira, 10 de Março de 2008
A derradeira história do Homem-Planta
Março 10, 2008
A porta do roupeiro entreaberta deixava espreitar o interior de camisas gastas de tons neutros entre outras peças igualmente velhas e usadas que variavam nas tonalidades de azul-escuro, castanho ou cinzento. Às vezes preto e novamente cinzento ou castanho. No espelho interior da porta, manchado pelo tempo e humidade, reflectia-se um cenário quase monocromático de peças velhas e mal cuidadas de onde destoavam apenas as cores vivas de um aparente uniforme verde e amarelo pendurado num velho cabide.
Encostada à parede, a cama desfeita de lençóis encardidos e mantas sobrepostas de eras passadas transmitia ao quarto um cenário de desarrumação que se prolongava nos vários copos esquecidos sobre a mesa-de-cabeceira, lenços de papel sujos e amarrotados caídos no chão, peças de roupa abandonada sobre uma velha cadeira de madeira e sem brilho, e no bacio de plástico azul com manchas amareladas que espreitava aos pés da cama.
A casa era velha. Na pequena divisão da entrada, acumulavam-se caixas de papelão cheias e objectos inúteis amontoados, por debaixo de casacos grossos de cores escuras, pendurados num cabide de parede. Pratos, panelas, frigideiras e talheres, com restos de comida, dividiam a desordem de uma pequena bancada de mármore e uma boa área da mesa da cozinha. Batatas mirradas e cebolas moles amontoavam-se em caixas de plástico ou papelão, a par dos sacos de plástico de cores berrantes e amarrotadas. Ao lado do fogão de bicos tisnados e superfície engordurada, o velho frigorífico insistia num zumbido monocórdico e prolongado, entrecortado de estalos regulares.
Na sala, sentado no pequeno sofá às riscas castanhas do canto junto à janela, o homem afagava a barriga flácida e proeminente. Rosto descaído com duas rugas vincadas dos lados da boca, nariz vermelho e esponjoso, e olhos fundos e vazios. O cabelo é branco e ralo a deixar ver uma testa demasiado grande. Tem os braços grossos mas moles.
A divisão estava na penumbra com os estores descaídos a meia janela a deixarem entrar uma luz tímida de Outono. Um último rectângulo estreito de luz fugidia desenhava-se aos seus pés. No resto, a mesma desordem monótona de lixo e objectos inúteis espalhava-se sobre o sofá grande, um cadeirão velho, a mesa da sala, e pelos cantos de chão encostados às paredes, enquanto a televisão fora de época aguardava, paciente, em cima da mesinha, o horário da noite para se tornar o centro das atenções.
O homem contemplou com indiferença toda a extensão do cenário desolador antes de se levantar com dificuldade. Os sessenta anos pesavam-lhe nos ossos. Bebeu o que restava do vinho que estava num copo ao lado do sofá e caminhou vagarosamente para o quarto. Espreguiçou-se longamente antes de voltar a acariciar o ventre com as duas mãos. A porta entreaberta do roupeiro chamou-lhe a atenção. Observou o interior com desinteresse e deitou uma olhadela ao espelho. Voltou de novo a atenção para as roupas e, subitamente, algo lhe chamou a atenção. Com cuidado, retirou o cabide de onde pendia o traje verde e amarelo de aspecto invulgar. Ficou a contemplá-lo à sua frente, largos minutos, com o cabide a pender do braço esticado. «Passámos muitas aventuras... Eu e tu... Muitas aventuras... Bons tempos que já lá vão... Bons tempos...» Tocou com leveza o tecido suave, agitando as pregas murchas.
Pendurou o cabide no puxador de uma porta fechada e abriu mais a que tinha o espelho, fixando-se no reflexo triste que este lhe devolvia. Empurrou para cima as peles moles da face com as duas mãos. Depois, fez músculo com força e pôs os braços em ângulo recto. Tocou num e noutro braço desesperando com a evidente flacidez. «Bons tempos que já lá vão...» E desceu as duas mãos para a barriga enquanto se virava num perfil que contemplou ao espelho. Lembrou-se dos cigarros consumidos à janela nos fins de tarde frios e, instintivamente, levou a mão ao bolso da camisa. Acariciou o maço junto ao coração como algo seguro e fiável.
O primeiro estrondo interrompeu-lhe o plácido encadeamento dos pensamentos sem se aperceber realmente do que estava a acontecer. Seguiram-se o segundo e o terceiro. E depois, mais três quase de seguida. Dirigiu-se à janela e viu mais duas pedras embaterem com o mesmo estrondo num bidão de latão ferrugento e sossegado num canto do quintal. Do outro lado do muro, junto à entrada, três rapazes, muito novos, estavam de cócoras a apanhar pedras que serviriam para futuros arremessos. Ergueram-se e continuaram na mesma rotina. O embate das pedras no metal ferrugento produzia um som estridente que parecia agradar-lhes. «Diabo dos miúdos – disse com ironia – Não têm mais nada para se entreter senão isto... Diabo dos miúdos».
Deixou tombar a cortina à frente dos vidros e seguiu vagaroso para a cozinha. Abriu um armário, depois outro, vasculhando o interior impaciente. Depois, abriu e fechou outra porta. E repetiu os gestos mais uma vez. Por fim, decidiu-se a rumar à sala. Por momentos, aparentemente perdido, acabou por se dirigir à mesa, onde, depois de desviar um monte de jornais e revistas velhos, encontrou um saco transparente com rebuçados coloridos, que agarrou com avidez.
Satisfeita a ambição dos seus gestos, deslizou sorridente pela divisão da entrada de novo em direcção à cozinha e daí para a porta que abria para o quintal. Mais uma vez, espreitou através do vidro os rapazinhos que entretinham o tédio no arremesso de pedras ao bidão. Ficou assim, indeciso neste olhar longo para a repetição de gestos lassos, por um minuto ou dois, antes de se decidir a abrir a porta para o exterior. Entretidos nestes afazeres, os rapazes nem deram pela figura barriguda e mal vestida que estacara à porta da casa. Até que aquele que parecia o mais velho dos três deu o alerta e os outros dois prontamente agarraram as mochilas e malas caídas no chão, prontos para a retirada.
A reacção imediata dos miúdos toldou a perspectiva do velho cujas pernas tremeram até quase cair. Encostou-se no caixilho da porta e acenou em esforço o saco de rebuçados à altura da cabeça. «Eh! Não precisam ter medo! – gritou numa voz rouca – Venham cá! Não precisam ter medo!» Do outro lado do muro, os três rapazinhos deitaram um olhar amedrontado para aquela figura de aspecto sujo e desagradável que os chamava, e puseram-se em cima das bicicletas. O velho gritava. «Venham cá! Tenho aqui isto... para vocês! Ouviram?» Um dos miúdos ainda o olhou uma última vez, deixando que os outros partissem à sua frente, mas depois, também ele desatou a pedalar depressa ao encalço dos amigos.
Nesse fim de tarde, de novo dentro de casa, o velho foi à cozinha buscar uma garrafa de plástico com vinho e regressou para o sofá da sala, onde bebeu dois copos de seguida, enchendo logo um terceiro. Depois, permaneceu o resto da tarde na penumbra, sentado no sofá em frente da televisão desligada, com o saco de rebuçados de cores vivas em cima dos joelhos. Mecanicamente, um após outro, retirou todos os rebuçados de dentro do saco, desembrulhou-os com mãos trementes e gestos lentos e comeu-os. Às vezes, interrompia este processo com um cigarro que fumava também devagar. 

J.P. Limão
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Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008
Terça-feira, quinto andar
Fevereiro 08, 2008
Um preto. Dois pretos. Invulgar e improvável. Depois, um verde, um vermelho e um branco. Um azul. Outro branco. Mais dois: vermelho e branco. Verde. Preto. Branco. Vermelho, de novo. «O próximo vai ser azul – dispara com convicção a menina de casaco de lã amarela.» A outra, de caracóis dourados, camisola vermelha e olhar circunspecto, mira-a com frieza. «Não vai nada! Vai ser branco.»
A chuva cai lá fora. Monótona e interruptamente, sem tréguas, sobre o cimento e alcatrão da rua. Dentro de casa, a tarde prolonga-se lenta numa macieza de gestos repetidos. As duas meninas trocam com mal disfarçado entusiasmo as suas apostas e depois esmagam os narizes de encontro aos vidros frios, que se embaciam com a respiração, na expectativa das respostas. Dentro da camisola vermelha, a menina de onze anos confia na sabedoria de ser a mais velha. Sabe que, aos dezoito, quer ser grande, bem sucedida e feliz. Ter um marido e dois filhos. A outra, a morena embrulhada no casaco amarelo, um ano mais nova, não sabe bem o que quer. Nunca pensou muito nisso e apenas deseja ter mais uma boneca nova, vestida de cor-de-rosa e com uma mala de mão, que viu na montra da loja de brinquedos. Atrás delas, um garoto de cinco anos, com madeixas claras e jardineiras azuis com um pato amarelo bordado na frente, só quer intrometer-se nas apostas. Mas é novo demais e as meninas, na sua sensatez de raparigas mais velhas, não o deixam participar. Por isso, fica a saltitar nas costas delas, avançando possibilidades que elas ignoram com coerência.
Passa um carro vermelho, cuidadoso na sua lentidão, acompanhado pelo ruído dos pneus no alcatrão molhado. A menina de amarelo solta um «Oh!» desiludido. «É vermelho!»
- Desta vez, ninguém ganha. Mas o próximo vai ser branco, de certeza...
- Não vai nada, vai ser verde! Vais ver...
Atrás delas, o rapazinho agarra a camisola encarnada. «Vai ser vermelho! Vai ser vermelho!»
- Cala-te! Tu não estás a jogar. Não chateies...
O rapaz faz um ar amuado e cruza os braços com força. «Mas porquê? Eu também quero jogar!»
«Já te disse que tu és novo demais. Nem consegues ver os carros e não percebes nada disto... – explica-lhe com impaciência fria a rapariga loura, antes de colar o rosto no vidro ao lado da amiga.»
A varanda, que estende uma estreita faixa de cimento à frente da vidraça, cobre quase integralmente o campo de visão das duas raparigas, deixando apenas observar uma reduzida nesga do início da rua no lado esquerdo. «Afasta-te. Estás à minha frente e não me deixas ver nada – diz a de vermelho, enquanto agarra o ombro da outra.»
- Se me afasto também não vejo nada...
- Então baixa-te! Se eu não vir o carro não vale.
Subserviente, a morena baixa-se um pouco, ficando as duas coladas ao vidro com atenção posta naquele início de rua. Um carro azul dobra a esquina devagar. «Bolas... É azul... Mais uma vez ninguém ganha.»
A menina loura suspira impaciente. «Então... Eu digo que é verde...»
- Branco!
- Estás a imitar-me! Eu tinha dito branco há bocado...
- E tu?! Eu também tinha dito verde! Tu é que roubaste a minha ideia...
- Não digas disparates... Eu disse primeiro...
Sentado no chão do quarto, atrás delas, o rapazinho agita em silêncio um super-herói voador pela alcatifa. Um carro branco espreita à esquina com as luzes acesas. «É branco! Ganhei! Ganhei outra vez! – grita a de amarelo.»
- Oh!
- Ganhei outra vez!
- Cala-te! Não faças tanto barulho, senão a avó vem aí outra vez...
«Ganhei outra vez! – exclama baixinho a morena com um sorriso de felicidade – Está sete a dois, para mim!»
«Não está nada! – responde a loura com vigor pouco contido.»
- Está sim!
- Não está nada! Está... Pelo menos sete a três... Eu ganhei há bocado, quando passou aquele carro azul grande!
- Não ganhaste nada! Tu tinhas dito verde, depois é que mudaste para azul... Assim não vale!
- Vale sim! A última é que conta!
- Tinhas dito que não...
- Mas isso era no início... Depois mudámos... Está sete a três!
- Ooohhh! És uma batoteira!
- Cala-te! Assim não prestamos atenção... O próximo vai ser branco...
«Amarelo – diz baixinho a morena amuada.»
- És mesmo parva! Quase não existem carros amarelos...
A outra olha-a sentida. «Mesmo assim estou a ganhar... Não sei quem é a parva...»
- É só sorte! Tens tido sorte! Porque as tuas apostas são estúpidas...
Escutam sem interesse uma voz fininha dizer «Vai ser vermelho!» Em silêncio, a morena embacia propositadamente o vidro com a respiração e desenha com o indicador um sete e um três. A loura olha-a com raiva, afasta-a e limpa os números com a manga vermelha. «Estás parva? Assim, não se vê nada!» A outra não responde. Comprime devagar o nariz arrebitado contra o vidro que está menos frio do que antes. A amiga imita-a e vêm surgir na esquina um automóvel vermelho. «Bolas... Vermelho!...» A palavra mágica desperta o rapazinho que se ergue subitamente do chão aos saltos. «É vermelho! É vermelho! Ganhei eu! – grita enquanto interpreta uma espécie de dança – Se me deixassem jogar, era eu que estava a ganhar!»
A morena ainda deita uma espreitadela tímida para trás. A loura não. Está séria e concentrada no desafio. «A partir de agora vamos ficar com as mesmas apostas. Não vale a pena estar sempre a mudar. Assim, é mais rápido... Tu tinhas dito amarelo e eu branco... Da próxima vez que passar um carro destas cores ganha a que disse a cor certa...»
A morena olha-a desconfiada. «Está bem... Mas eu quero mudar para verde...»
- Não! Agora já não se pode mudar!
- Mas eu quero... Há bocado tinhas dito que se podia...
- Mas isso era antes de começarmos com estas regras novas. Agora já não se pode. Se querias mudar tinha de ser antes...
- Mas eu não sabia... Foste tu que disseste que havia regras novas...
- Se não quiseres não jogas... Vais para a cozinha com a avó... É isso que queres? Não és obrigada a jogar!
A morena não responde. «Então? Queres jogar ou não?»
«Está bem... – reage, por fim, num fio de voz quase inaudível.»
As duas meninas colam-se ao vidro numa paciência tensa e silenciosa. Passa um automóvel vermelho. Um verde acompanhado por um suspiro de desalento. Outro verde. Um vermelho. Preto. Vermelho. De repente, um automóvel amarelo espreita à esquina. «Amarelo! – grita com entusiasmo a morena – Um amarelo! Ganhei! Ganhei outra vez! Está oito a três! Está oito a três! – e lança para fora uma língua húmida e zombeteira.»
A menina mais velha mira-a com frieza. «Não sejas infantil... – diz com desprezo.»
A outra agita os braços para cima e para baixo numa dança festiva. «Ga-nhei! Ga-nhei! Ga-nhei! Oito a três, para mim! – canta desafinada.»
- É só sorte...
- Ga-nhei!
- Bem... Cala-te e vamos jogar...
- Ga-nhei! Ga-nhei! Ga-nhei!
- O próximo é verde...
- Ga-nhei! Ga-nhei! Ga-nhei!
- És mesmo infantil! Joga e deixa-te de parvoíces...
- Hum... Azul! Ga-nhei! Ga-nhei! Ga-nhei!
A loura de vermelho esmaga o nariz no vidro com concentração. A outra, com um grande sorriso estampado no rosto encosta-se também na superfície lisa.
Passam mais carros e as apostas sucedem-se. A menina morena continua a ganhar. Acertou onze vezes enquanto a loura não conseguiu mais do que seis apostas certas. A chuva cai devagar, cada vez menos, ameaçando uma trégua que não tarda a chegar. «E se fossemos lá para fora? Já não está a chover... – propõe a menina loura.»
- Mas está frio...
- Não me digas que tens medo do frio?
- Não... Não é isso... A avó não vai gostar...
- A avó não precisa de saber... Pois não?
- Mas...
«Anda... Lá fora vê-se melhor – diz enquanto abre a porta de correr.»
O ar frio de Inverno irrompe pelo quarto, arrefecendo-lhes as bochechas. A loura exibe a segurança de menina mais velha, arriscando um primeiro passo nos mosaicos brancos e molhados para além da porta de vidro. «Não está nada frio! Está-se bem! Anda! – diz enquanto se envolve nos braços da camisola.» A morena segue-a com receio. «Brrrr.. Está mesmo frio...»
- Mas vê-se muito melhor...
A outra aproxima-se do varandim. O rapazinho espreita pela portada aberta e ameaça segui-las. A loura apercebe-se. «Tu não podes vir!»
- Porquê? Também quero ver...
- Tu és muito pequeno... ainda te constipas.
- Não constipo nada!
- Se te constipas, os pais e a avó vão ficar zangados...
«Se não me deixam ir, conto tudo à avó – arrisca com disfarçada ousadia»
A rapariga solta um suspiro aborrecido. «Se contas, levas... – ameaça com expressão decidida no olhar.»
«Conto, conto... – insiste o rapaz.»
- Deixa-o ficar... Se ele não vier para aqui, não há problema.
As meninas entreolham-se e a loura mira novamente o irmão. «Está bem! Podes ficar aí à porta. Mas não saias daí, senão sou eu que conto tudo à avó! Ouviste?»
«Está bem... – solta num sussurro.»
- Não ouvi bem...
- Está bem, está bem... Fico aqui...
Com as duas meninas colocadas junto ao varandim, o jogo prossegue acompanhado por uma atenção desmedida ao princípio da rua. Os automóveis sucedem-se. Passa um verde. Um azul. Outro azul. A menina de vermelho ganha. Depois, seguem-se verde, azul, preto, branco, branco, sem sucesso de nenhuma delas. O vermelho dá a vitória à morena. O azul garante um impasse que o preto desfaz com novo triunfo da menina de amarelo. «Quanto é que está? – pergunta, sem entusiasmo, a de vermelho.»
- Catorze a oito! Ganho eu!
- Já estou farta de jogar...
- Claro... Estás a perder...
- Não é isso... O jogo já não tem graça...
- Eu estou a gostar...
- Então fazemos uma última aposta... Quem acertar ganha o jogo!
- O quê?
- Quem acertar no próximo ganha todos! O que achas?
- Assim não vale! Eu ganhei muito mais do que tu! Assim, se acertares ganhas tudo e é injusto!
A loura fica impaciente. «Está bem... Tu ganhaste este... mas agora é um jogo novo. Quem acertar ganha e acabou-se. O que dizes?»
- Hummm... Não sei...«Não tens nada a perder! Já ganhaste este... E o próximo parte do zero. Ganha quem acertar! – explica com impaciência visível perante a desconfiança da outra.»
- Está bem...
- Ok! Então eu digo que é branco!
Ainda desconfiada, a menina do casaco amarelo hesita numa suposição. «Eu digo... que é... preto! – arrisca por fim.»
A outra observa-a com desprezo. «Está bem! Então... se passar um carro branco, ganho eu. Se passar um preto, ganhas tu... Combinado?»
- Combinado!
As duas apertam a mão com solenidade.
À esquina surge um carro vermelho. Outro vermelho. Seguem-se azul, verde, azul, cinzento... A impaciência acentua-se. «Pfff – solta a de amarelo – Nunca mais...» A outra morde um lábio com força e ignora-a em silêncio.
Espreita um carro azul. Verde, cinzento, vermelho. Novamente vermelho. Depois seguido por um verde. As meninas estão cada vez mais tensas. De repente, a esquina deixa perceber um novo automóvel a contorná-la. É preto. A menina morena dá um salto. «É preto! Ga-nhei! Ga-nhei! Ga-nhei! – grita efusivamente.» Faz de novo o agitar de braços festivo. «Ga-nhei! Ga-nhei! Ga-nhei!» A outra espreita-a pelo canto do olho com indisfarçável desprezo. A menina prossegue saltitante. «Ga-nhei! Ga-nhei! Ga-nhei! Ganhei outra vez!» Irritada, a outra não diz palavra. Não é preciso. Basta uma mão encostada nas costas com um pouco mais de força. Um empurrão que aproveita o desequilíbrio dos saltos da prima. Um gesto brusco. Depois, fecha os olhos com força, sem ver o amarelo que se afasta rapidamente na direcção da rua. Vira-se para o rapazinho atrás dela que a mira com uma expressão assustada. Ela avança para ele. «Anda, vamos para dentro.» Pálido e sem esboço de resposta, o rapazinho mete-se rapidamente dentro do quarto. A menina segue-o. Fecha a porta de vidro e baixa o estore. Olha para o menino e dá-lhe a mão. «Anda, vamos lanchar.» Ele agarra-lhe na mão. «E a Clara? – pergunta num sussurro tímido.»
- A Clara não quer lanchar.
Em baixo, no asfalto da rua, uma mancha vermelha interrompe a circulação lenta dos automóveis de várias cores. Um preto. Dois pretos. Invulgar e improvável. Depois, um verde, um vermelho e um branco. Um azul. Outro branco. Mais dois: vermelho e branco. Verde. Preto. Branco. Vermelho, de novo.


J.P. Limão
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Terça-feira, 9 de Outubro de 2007
O gato amarelo
Outubro 09, 2007

A noite estava primaveril, com um céu estrelado e uma lua nova luminosa. Havia largos meses que não sentia a aragem leve de uma noite que deixava adivinhar um dia solarengo. Sorriu e inspirou demoradamente o cigarro, enquanto observava a desordem do jardim defronte da casa. Vasos ou recipientes toscos de plástico guardavam plantas amareladas e distribuíam-se caoticamente junto aos muros, caixotes que escondiam objectos inúteis amontoavam-se nos cantos, e uma mangueira serpenteava pela relva, abandonada. Engoliu em seco.

Reparou no muro mais distante. Exactamente à sua frente, um grande gato de riscas amarelas bocejava longamente. Fitou o animal que, depois de se espreguiçar, fixou-se imóvel no muro e lhe devolveu o olhar. Sorriu. «Pchhh, pchhh, pchhh – chamou baixinho – Gato! Pchhh, pchhh, pchhh. Gato!» Atento aos chamamentos, o animal fitava-o com desdém.
Lembrou-se dos tempos passados neste jardim, sempre povoado de gatos vadios que lhe violavam a privacidade dos muros. Primeiro nas tardes de futebol ou matraquilhos. Mais tarde em cigarros furtivos na casa de ferramentas ou beijos roubados debaixo das árvores.
Sentiu-a chegar de mansinho, e enroscar-se-lhe a partir das costas, com os braços miúdos a envolverem-lhe o peito. «Estás a pensar em quê?», perguntou com ternura. Sentia-lhe o calor do corpo e a respiração no pescoço. «Em nada. Estava a pensar em nada.» Segurou-lhe a mão.
- Estava apenas a observar aquele gato gordo de riscas amarelas que está ali em cima do muro – e apontou a direcção com o indicador da mão direita. A rapariga inclinou-se para espreitar por detrás do seu ombro esquerdo, sem o largar. «Onde?»
- Ali. Mesmo em frente – respondeu – Estás a ver a direcção do meu dedo? Disse, estendendo o braço na mesma direcção.
- Sim, sim! Já tou a ver! Exclamou num tom jovial, de rapariguinha nervosa.
Agarrou-lhe novamente a mão e sentiu o rosto dela pousar-lhe no ombro. «Sabes – disse baixinho – De cada vez que aqui venho recordo-me de histórias que aqui passei.»
- Hum, hum…
- Quando éramos pequenos, eu e a Marta, costumávamos brincar aqui dias inteiros. Já nessa altura o jardim estava sempre cheio de gatos. A minha mãe costumava deixar-lhes restos de comida e os bichos andavam sempre por aqui à procura de alguma coisa…
- Era mesmo típico dela. Pelo que contas… Gostava de ter conhecido a tua mãe.
- Uma vez, eu e ela descobrimos que uma gata tinha tido uma ninhada na casa das ferramentas. Foi uma confusão. A Marta sempre adorou animais e queria ficar com os gatos todos. Só que o meu pai detestava gatos… e ficou furioso com esta história toda. Ainda por cima porque a minha mãe não lhe tinha contado nada…
- O que é que aconteceu?
- Não sei… Não me lembro bem…
- Não acredito…
- Sério. Não me lembro… Provavelmente a Marta enfrentou o pai… Ela sempre foi mais corajosa do que eu… Acho que ficaram aqui uns dois meses, e ela lá terá arranjado umas amigas para ficarem com eles…
«A tua irmã sempre conseguiu aquilo que queria…» Escutou-a dizer, antes de a sentir esconder um bocejo com a mão esquerda.
Soltou-se do braço que ainda o envolvia e virou-se para ela enquanto fechava a janela. «Anda. Vamos para dentro. Estás cansada e tens de descansar… Devias deitar-te».
- Já vou… Só vou se tu vieres. Também estás cansado. Vejo-o nos teus olhos. A viagem foi longa. E amanhã tens tanto que fazer…
Sorriu-lhe. Em silêncio, dirigiu-se ao bar e observou as garrafas. Pegou numa com um resto de uísque que depositou num copo achado dentro do armário. «Ainda vais beber? Já é tão tarde…» Escutou-a dizer num tom que julgou levemente reprovador. Voltou-se com o copo na mão e viu-a sentada no sofá, a olhar para ele, com a mão direita a anelar o cabelo mecanicamente. «Estás outra vez a fazer caracóis…» Disse-lhe, despoletando o imediato travar do movimento. «Nem dou por isso… é tão natural e inconsciente» Ripostou num tom maçado.
Sentou-se, pousando o copo sobre a mesa. Ela cruzara os braços e fitava-o, indiferente à televisão que se escutava em murmúrio. «Está a dar alguma coisa de jeito? – perguntou, despoletando uma certa perplexidade – Na televisão…»
- Não sei… não tenho estado a ver nada. Queres o comando?
Abanou negativamente a cabeça.
- O que é que combinaste com a tua irmã? Vais ter com ela amanhã?
- Sim.
- Já sabes o que vão fazer com as coisas que eram dos vossos pais? Ela quer ficar com esta casa?
- Não sei bem. Acho que a Marta falou qualquer coisa sobre um advogado. Penso que a ideia é pôr tudo à venda. É só eu assinar os papéis. Sinceramente não quero pensar muito nisso.
- Acho que é o melhor…
«O que é que é melhor?» Lançou-lhe um olhar firme e interrogador.
- Isso de venderem a casa. Está velha e estragada… a precisar de obras…
- E cheia de recordações…
- Dizes isso porque estás aqui agora. Quando regressarmos a Londres, vais ver como isso vai passar. Afinal, ainda está tudo muito fresco…
Olhou-a nos olhos com um sorriso triste. «Achas? – antes de dar mais um golo no uísque». Ela deixou escapar um bocejo. «Ai… Desculpa… – passou a mão pelo rosto – tenho a certeza.»
Pousou os olhos nos motivos da carpete e agitou circularmente o líquido amarelo dentro do copo. «Sabes… A vida é como um dente… – deixou escapar num sussurro.»
- Como?
Olhou-a no mesmo sorriso vago. «A vida é como um dente… É um poema de um tipo francês. Primeiro nem dás por ele e usa-lo distraidamente para mastigar. Até que um dia começa a doer e quando dás por isso, tens de o arrancar da tua própria vida. – olhou-a fixamente – É assim com tudo na vida. Não lhe dás valor até que o perdes.»
As palavras ficaram a ecoar no silêncio desajeitado. «Lá estás tu com as tuas ‘francesices’ literárias – ripostou por fim enquanto se espreguiçava – É sempre a mesma coisa».
Ele sorriu-lhe. «Porque é que não te vais deitar? Pareces cansada. Tens uns olhinhos assim – semicerrou os olhos a imitá-la – pequeninos. Só vou beber isto e já vou ter contigo.»
Ela contraiu o rosto, mas não conteve um novo e prolongado bocejo, mal dissimulado por detrás da mão. «Desculpa – disse, espreguiçando-se – Estou mesmo cansada.»
- A sério, vai-te deitar. Eu não demoro.
- Prometes?
- Prometo.
- Então, acho que não resisto. Vou para a caminha fazer ó-ó… Mas não demores. Não gosto de ficar sozinha nesta casa.
- Está bem… Não vou demorar.
Ela ergueu-se, espreguiçou-se com os braços esticados, os olhos quase fechados e o rosto franzido, e curvou-se junto dele com os lábios a pedirem um beijo. «Beijinho! – disse calorosa – Quero um beijo de boa noite!»
Um beijo. Dois beijos. Três beijos. «Amas-me?» Quatro beijos. «Sim. Claro que te amo.» Cinco beijos. «Muito?» Seis beijos. «Muito.» Sete beijos. Ela dirigiu-se à porta. Desapareceu e reapareceu por metade, com a cabeça a espreitar por detrás da ombreira. «Adeus meu amor. Não demores…»
- Não… não demoro nada.
 
Despejou o conteúdo de outra garrafa de uísque no copo e rumou à janela. Acendeu um cigarro. Lá fora, o gato amarelo tinha companhia. Estava deitado, dissimulando as patas dianteiras por entre o pelo denso, e acompanhava os movimentos ligeiros de três novos companheiros que saltitavam no telhado da casa de ferramentas. O cigarro consumiu-se lento perante o espectáculo dos felinos. Fez um gesto brusco e os três gatos dispersaram. Somente o gato amarelo permaneceu firme.
A luz artificial do jardim iluminava os ramos torcidos da pereira velha e prolongava sombras escuras junto aos muros. Num impulso brusco abriu a porta e saiu. Sentia a brisa fresca afagar-lhe os braços, enquanto deambulava pela relva. Procurava atentar nos pormenores do jardim, mas sem querer, começou a reconhecer os passos tantas vezes repetidos. Estacou junto à casa de ferramentas, apoiando a mão direita na porta de madeira. Observou o gato de soslaio, ainda no muro, e, num movimento, retirou a chave de debaixo de um vaso que erguera. A porta abriu-se sem resistência, libertando um cheiro azedo de mofo e antiguidade. Procurou o interruptor, que libertou uma luz fraca e sombria. O pequeno compartimento pareceu-lhe congelado no tempo. O cortador de relva, agora mais ferrugento, as tesouras de podar a penderem na parede, a bancada grande de madeira, a caixa de ferramentas, os frascos de tintas alinhados em prateleiras toscas, embalagens de sementes, recipientes repletos de pregos desordenados…
À medida que os olhos se acostumaram às sombras e o nariz começou a suportar os cheiros, avançou alguns passos em direcção ao interior. Dirigiu-se à bancada e sentou-se, acendendo um cigarro. Apercebeu-se então, pela primeira vez, que a privação ao consumo regular de álcool nos últimos anos lhe reduzira drasticamente a resistência aos seus efeitos. O uísque começava a actuar. Sentia uma onda de calor espalhar-se pelo peito enquanto os primeiros sinais de uma neblina ténue lhe disfarçavam os contornos dos objectos. Deixou pender a cabeça contra a parede e recordou, demoradamente, os tempos passados no jardim. Primeiro nas tardes de futebol ou matraquilhos. Mais tarde em cigarros furtivos na casa de ferramentas ou beijos roubados debaixo das árvores.
O copo vazio e a recordação do maço de tabaco esquecido na mesa da sala cravaram-se entre as memórias, obrigando-o a regressar a casa. Pelo caminho, ainda espreitou o gato amarelo pelo canto do olho e resmungou um palavrão. Encheu o copo novamente, antes de se dirigir à pequena estante com não mais do que duas dezenas de livros. Desfilou o indicador de encontro às lombadas, parando à imagem de um velho e gasto exemplar de “A espuma dos dias”. Retirou-o com cuidado. Abriu a capa entre as duas mãos, soltando as folhas devagar até suster o movimento e retornar duas ou três páginas atrás. Abriu-o então com vigor, deixando descoberta uma fotografia de uma jovem mulher, com cabelo louro comprido e olhos claros e sorridentes apontados ao fotógrafo. Prendeu-a cuidadosamente entre o polegar e o indicador e pousou-a sobre a mesa, encostada a um velho jarro vazio. Cara a cara com a fotografia, continuou a beber o uísque que, cada vez mais, libertava os demónios do álcool.
Levantou-se em delicado equilíbrio e rebuscou com ansiedade os bolsos do casaco até achar o telemóvel. Deixou-se cair novamente no sofá e dirigiu a agitação para o aparelho numa desajeitada ginástica de dedos. A ansiedade estancou na atenção a um número. Cruzou o olhar com a rapariga da foto e observou o telemóvel. Despejou o resto de uísque num gole, levantou-se brusco e passou a mão no cabelo de farripas ruças. Pigarreou antes de colar o aparelho na orelha. Escutava o som repetitivo e ininterrupto de chamada. Uma… duas… três… quatro… cinco vezes… – deixou cair o braço junto ao corpo, num esboço de desistência, mas ergueu-o de novo com convicção reforçada – seis… sete… oito… nove vezes… «…Estou? – ouviu uma voz rouca e estremunhada de mulher – Estou?... Quem fala?...» Engoliu em seco, mas a voz faltou-lhe. «…Estou?... Estou?... Quem fala? – a voz soava incomodada.» Pensou no quanto seria fácil dizer-lhe o nome e esperar a reacção. «Estou?... » Dizer-lhe «Olá», dizer-lhe que tinha saudades… «Estou? Vou desligar! – a voz soava decidida – Que é que se passa querida? – escutou em fundo uma voz masculina – Quem é?» Desligou o telemóvel.
Encheu o copo e bebeu-o num trago. Arrumou o livro na estante e rumou de novo à janela. O gato permanecia no mesmo sítio. Num gesto, arremessou na direcção do animal o cinzeiro que terminou a viagem a meio do caminho. O gato pulou sobressaltado mas rapidamente readquiriu a postura. Nada a fazer. Apagou a luz do jardim e tornou para a sala.
No quarto, ela dormia profundamente, com as costas voltadas para o seu lado da cama. Deitou-se. Acariciou-lhe o corpo e comprimiu-a contra si, beijando-lhe o pescoço. Escutou-a resmungar qualquer coisa. «És o meu amor... – segredou-lhe ao ouvido – Sabes? És o meu amor.»
 
J.P. Limão

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