Segunda-feira, 31 de Março de 2008
Como escrevi “Nobre Estripador”
Março 31, 2008

A gente pequena habitante das suas casinhas nos subúrbios nunca poderá apreender a verdadeira dimensão da literatura. Sejamos francos: a real apreciação da arte está reservada apenas aos espíritos elevados. Não discuto a existência de um núcleo de assíduos que intervalam a monotonia do movimento casa-emprego-casa com umas horas de leitura mas, aqui para nós, duvido muito que essa fornalha de gente só, em permanente combustão de si própria, tome dela – da arte literária – a substância que a engrandece. Para estes pobres coitados sem mais nada que fazer, ler um livro ou pedaços dele é tão enriquecedor como aparar a relva do jardim num dia de primavera. Sabe bem, é nitidamente diferente de adormecer no sofá, mas não lhes serve de grande coisa.

Sempre tive para mim que a literatura só existe em duas formas: a má e a incompreendida. É da última que trata o meu grande romance “Nobre Estripador”. Já devem ter ouvido falar. A par de dois ou três folhetins franceses subvalorizados – e um americano bastante razoável – conseguiu entrar directamente na galeria dos grandes romances incompreendidos de qualquer século e o autor – eu próprio – no lote restrito dos artistas bafejados pela sorte de poderem viver às custas do seu enorme talento – e aqui não estou a exagerar.
Não digo que exista uma grande diferença entre o artista e o homem comum. Biologicamente são iguais. Psicologicamente até, são bastante parecidos. Duvido mesmo que um seja mais inteligente que o outro – se os artistas fossem inteligentes não desperdiçariam dias inteiros a trabalhar o que quer que fosse. No entanto, duma coisa não tenho a menor dúvida: o artista não sabe porque trabalha. O homem comum trabalha porque “deve”. E nisso reside a diferença principal.
Porque escrevi eu então “Nobre Estripador”? Porque não me dediquei a aparar o jardim ou a ver os outros apararem os seus jardins? Porque razão me despedi do meu emprego e de toda a vida social e me fechei no escritório a acabar uma das obras do século? É isso que vos tentarei explicar e a mim próprio. Foi por isso que escrevi “Como escrevi ‘Nobre Estripador’”.
 
Tendo sido sempre o melhor dos alunos nas melhores escolas onde fui educado, aos dezoito anos deparei-me com duas alternativas: abandonar os estudos e trabalhar – como muitos – ou ingressar na faculdade – como os espertos. O meu pai aconselhou-me a segunda hipótese. Sempre acatei os conselhos do meu pai, não sem algumas reservas num ou noutro ponto, fruto da diferença de idades. No entanto, aquele coincidia exactamente com o meu plano pós-liceal: adiar o inevitável por mais quatro anos. Assim o fiz, para meu bem e da humanidade.
Se o primeiro ano de graduação foi passado entre a biblioteca e os diversos bares do Campus, provando todo o tipo de conhecimento milenar – o escrito e o misturado com gelo – o segundo foi bastante diferente. Acometido dum certo tédio, provocado pela repetição contínua das mesmas misturas em livros e bares diferentes, no ano dois resolvi abster-me da vida académica e começar a rascunhar o que viria a constituir material para o capítulo dois e quatro de “Nobre Estripador”.
Na altura, pensara escrever algo parecido com um romance sério. Tinha-lhe mesmo dado o insólito título de “A Casa Grande do Lago Fishbone”. No entanto, após mostrar alguns excertos a amigos mais próximos, percebi que era ainda demasiado imaturo para embarcar na árdua tarefa da literatura de fôlego. Decidi então parar e dedicar-me aos contos.
O meu primeiro conto foi uma tarefa inesperadamente árdua. Arduamente inesperada, também. Trabalhei dias a fio, fechado na minha residência nos arredores do campus. Recusei-me todo o tipo de lascívias e distracções. Dois meses depois de ter iniciado a hercúlea tarefa, exibi com um certo orgulho o resultado ao editor do jornal dos alunos. Era um tipo novo e um pouco snobe, dotado de um curriculum invejável – era filho de um famoso publicista. Sempre tive consciência que o génio é algo geneticamente transmissível, por isso e apesar de nada conhecer de escrito do jovem editor, confiei no seu julgamento.
A reacção não foi entusiasmante em exagero. Porém, penso que o tipo gostou minimamente do que leu, pois anuiu publicá-lo no número seguinte. O conto, intitulado “Águas Furtadas, Desejos Semelhantes” não obteve grande reacção por parte da vintena de leitores do Jornal mas proporcionou-me a entrada no meio literário da faculdade.
 
Pertencer a um círculo literário ou a qualquer outro círculo não tem nenhum outro interesse especial que não o de conhecer novos companheiros de bebida e, num ou noutro caso, raparigas. Se aos trinta e quarenta anos as raparigas, escritoras ou não, se resignam ao papel de caricaturas de suas mães, aos vinte podem ser adoráveis. Na vida em geral, dedicam-se à construção subliminar de uma certa reputação. No plano das letras, maioritariamente à poesia. Essa tendência ligeiramente ingénua e romântica poupa aos “caçadores furtivos” a maçada da leitura exaustiva antes do prémio. Um poemita ou outro, intervalado por um copo de vinho é o suficiente para estabelecer uma relação mais próxima e compensadora.
Foi no círculo do Jornal de Letras do campus que conheci Sara Van Gauss. Ao contrário da ideia que tinha sobre as aspirantes a escritoras da sua idade, Van Gauss já adquirira a tal reputação, preparando-se agora para abandonar a poesia. Não esperou que eu lesse os primeiros capítulos do seu romance para me deixar entrar no seu mundo desbragadamente erótico e fascinante.
Como podem adivinhar, nos dois anos seguintes se alguma palavra escrevi foi o seu primeiro nome numa árvore, dias antes de me trocar por um atávico neto de um profundo capitalista.
O desgosto do abandono de Sara levou-me a redefinir prioridades. Concluí a faculdade e estabeleci-me como consultor financeiro júnior num pequeno banco com grande futuro. Um emprego respeitável – esperava eu – proporcionar-me-ia a possibilidade de organizar a minha vida na direcção duma casa maior, um carro de jeito e o suficiente tempo livre para retomar a minha escrita. Estava enganado. Mudei de renda, quase sem mudar de apartamento. Comprei um carro em segunda mão alérgico ao fim-de-semana. E quanto ao tempo livre... no pouco que tinha sentia a necessidade de evitar a secretária a todo o custo e dedicar-me antes a actividades libertadoras como visitar amigos ou sentar-me num banco de jardim e imaginar que aparava a minha própria relva.
 
Foi num jantar de amigos que me chegou aos ouvidos a história de um tipo que tinha ganho uma fortuna com a poesia. Segundo um dos meus mais próximos a poesia estava “na berra”. Ao ouvir isto, desculpei-me aos convivas e regressei imediatamente a casa. Se a poesia é que estava “a dar”, se pela poesia o mundo poderia finalmente compreender o meu formidável génio, então a luz da poesia brilharia sobre mim iluminando também o meu futuro público. No resto do fim-de-semana mergulhei na leitura atenta dos poetas clássicos e alguns modernos, dos quais retirei uma ideia geral do assunto.
Na segunda-feira seguinte liguei para o escritório e pedi à secretária que me enviasse a papelada necessária para meter baixa. Fui então visitar o dr. Orlando, o meu médico de família. Garanti-lhe que estava com uma depressão que me poderia levar ao suicídio ou à própria depressão. O bom e anafado Orlando não me fez a desfeita e assinou os papeis da baixa. Tinha um mês. Um mês para escrever um livro de poesia que revolucionaria o mundo poético nacional, até europeu.
Escrever poesia acabou por ser mais fácil do que esperava. A regra de ouro em voga era evitar a rima – no fundo, o grande desafio dos poetas antigos. Porém, a minha notável exigência auto-critica viu-me forçado a prolongar a baixa por mais três meses. Recorrendo a laboriosa ginástica médica e financeira, consegui ganhar tempo para rever, melhorar e aprofundar o meu estilo.
Ao fim de seis meses de duro trabalho, a obra estava concluída. A reacção dos editores dividiu-se entre o desinteresse e o encorajamento. Como era óbvio, todos tinham medo de arriscar numa obra também de si arriscada e inovadora. Nada que não esperasse já. Um dos editores sugeriu mesmo a inclusão de alguma rima. Ao que parecia, em seis meses a rima estava de volta. Chegou mesmo a afiançar-me um adiantamento se inserisse algum colorido rimado nos meus poemas. Como podem adivinhar, não aceitei. Sempre tive para mim a não subserviência do imperativo criador à circunstância.
Pedi ao meu pai para falar com um amigo de um amigo que escrevia num jornal semanário. O amigo do amigo fez a gentileza de receber o manuscrito, ligando-me passado quinze dias a combinar uma reunião. Através do amigo do amigo do meu pai, que tinha um amigo editor – um dos que recusara a obra – consegui que o editor amigo do amigo do amigo do meu pai, reapreciasse o meu talento. Tal como calculara, uma segunda leitura revelou todas as qualidades duma primeira investida poética, não só digna de publicação, como de substâncial orçamento promocional.
 
Nem dois meses tinham passado e a minha colectânea poética intitulada “Serpentário” estava em destaque nos expositores das principais livrarias. Tal como já esparava também, os críticos atiraram-se a mim como leões. Nos meses que medearam a escrita da publicação a rima tinha reaparecido, caído em desuso, regressando de novo para ficar. “Serpentário” não tinha uma única rima. Acusaram-me de “ultrapassado”. Disseram que me levava demasiado a sério. Um crítico chegou mesmo a ficar indignado com a paginação do livro, acusando-a de, e cito: “displicente e moralmente pejorativa”. É óbvio que não me abati. Decidi regressar em força ao “Nobre Estripador”, no fundo, o trabalho que me interessava e no qual deveria depositar todas as minhas energias.
 
Despedi-me. Na verdade, com a ajuda de um bom advogado amigo do meu pai, consegui que me despedissem sem justa causa, o que levou a que uma generosa indemnização se acomodasse temporariamente na minha conta bancária. Sem problemas de dinheiro e com tempo suficiente, regressei ao romance.
Passei cerca de meio ano tentando melhorar e adaptar os dois capítulos que escrevera na faculdade para a nova ideia que tinha para a história. Como sabem, o título antigo era “A Casa Grande do Lago Fishbone”. A ideia original era o relato detalhado de um fim-de-semana duma família disfuncional em que o avô, velho e doente terminal, acaba por se revelar a pessoa mais lúcida no meio de gente jovem e problemática. Foi muito difícil adaptar o segundo capítulo – a descrição da casa grande e do lago – para as ruas de Londres do século XIX, onde começa a saga do “Nobre Estripador”. Ao fim de muitas tentativas, desisti. Com muita pena minha, um lago no Canadá não se parece de maneira nenhuma com o ambiente soturno e industrial londrino. O capítulo quatro, tratando-se do relato de um sonho do avô, foi facilmente transponível para a personagem principal do estripador.
 
Dois anos depois do meu injusto despedimento e com duas ou três paragens por ano para descansar na nossa casa na costa, todo o romance estava delineado, quatro capítulos escritos e dois em vias de finalização. Mas o optimismo na arte não se compadece com a teia pessimista que a vida tece em volta do ser a que chamamos artista. Todas aquelas minhas investidas pela costa acabaram por condicionar uma enorme desvalorização na minha conta bancária. Necessitava, mais que nunca, de um salário.
Sem dar por ele, o tempo passara por mim e a minha cotação no mercado de transações de massa bruta de trabalho descera a pique. A morte do meu pai tinha deixado uma mancha substancial no meu currículum. Dois anos era muito tempo para a gente dos negócios e, para meu lamento, o meu amável progenitor já cá não se encontrava para colmatar essa área branca, vazia de actividade para qualquer das pessoas comuns que não percebem nem nunca perceberão o trabalho que a arte dá.
Para arranjar uns tostões, vi-me forçado a colaborar num pequeno jornal de província que me obrigava a deslocações constantes ao campo e a conviver com um velho e rabujento editor, provavelmente um artista da facção cobarde – aqueles que não arriscam trocar o conforto do funcionalismo social pelas agruras de uma vida dedicada ao belo. Mas o bom e velho editor acabou por me ensinar generosamente duas ou três coisas sobre a escrita que me tinham passado ao lado. Tratando-se dum jornal de província que ninguém lia, as colaborações primavam pela excelência do uso da língua para colmatar a falta de novidades. A experiência jornalística engrandeceu o meu vocabulário e activou em mim o gene da fluidez de discurso.
 
Nos dois meses que colaborei no jornal ganhei novo fôlego para escrever e, finalmente, completar o “Nobre Estripador”. Ganhei também uma pequena úlcera que, a par do encaixe financeiro proporcionado pela herança do meu pai, precipitou a minha saída do meio jornalístico.
Arriscando com a saúde, decidi ignorar a úlcera. Cautelosamente, aproveitando as lições do meu passado perdulário, coloquei algum dinheiro de parte. Com o resto da herança encetei uma jornada pela velha Europa em busca de inspiração para o fôlego final do “Estripador”.
 
A primeira paragem foi Londres. A impressão que a cidade me deixou foi a de que, na actualidade, se assemelhava mais com a londres novecentista que a ideia que eu fizera da cidade no século dezanove. Isto obrigava-me a reescrever de novo todo o segundo capítulo, o que me angustiou profundamente e ditou o adiamento do meu regresso até ele se tornar descaradamente inevitável face à escassez económica pessoal.
Regressado do meu périplo inspiracional, retomei o trabalho com afinco. Os primeiros tempos foram de intensa produção. No entanto, uma úlcera mal curada começava a incomodar verdadeiramente. Depois de uma semana de cama sem me conseguir mexer acabei por visitar o filho do dr. Orlando – o meu novo médico de família, já que o próprio morrera de ataque cardíaco ditado pelos charutos que tanto apreciava. Depois de duas semanas entre hospitais e clínicas de análises, um eminente catedrático do Hospital Universitário deu-me esta terrível notícia: a úlcera tinha evoluído para um cancro no estômago. Segundo o especialista, deveríamos iniciar de imediato o tratamento, sem que a erradicação total do tumor fosse garantida. Profundamente abatido e atulhado de comprimidos para as dores, regressei a casa para a noite mais triste e ao mesmo tempo iluminada da minha vida.
 
Ali estava eu, pouco mais de trinta anos, ex-poeta, ex-jornalista, ex-tudo, solteiro, sem ninguém, face-a-face com uma doença potencialmente incurável, um obstáculo inadiável na minha aventura de acabar o “Nobre Estripador”. Quase chorei.
Pela noite escura e silenciosa, pensei muito sobre a minha vida e sobre tudo o que rejeitara para me tornar um grande escritor. Pensei nas manhãs que não vira nascer ou que não apreciara devidamente e nos entardeceres desperdiçados. Pensei no explendor das Primaveras que só sentira ao de leve, embatendo no vidro da janela e nos dias de Verão enfiado no escritório a martelar as teclas. Pensei nos lábios sedosos das mulheres que não beijara e em todos os cantos do Mundo que não conhecera.
No auge da minha angústia, posso-vos jurar que ouvi o som dos sapatinhos do filho que não tivera e vi ali, do outro lado da cama, aquela que poderia ter sido a minha mulher. Sorria. Era bela. Segredava-me belas frases que nenhum poeta alguma vez escreveu.
Desamparado e doente, senti também uma enorme raiva por todas aquelas coisas que os críticos tinham dito de mim sem me conhecerem e por todas as pessoas que passaram pelas livrarias muito ocupadas com as suas vidas, sem um certo tempo para arriscarem olhar sequer para a capa do meu livro de poemas – e era uma bela capa que tinha custado uma pipa de massa.
No topo da torre do meu desespero, passou-me pela cabeça saltar uma qualquer vedação de um qualquer jardim de subúrbio e aparar uma família desconhecida, da avó ao filho mais novo. Não esquecer o gato.
 
Depois acalmei-me. Inspirei fundo. Já era manhã cedo quando resolvi que não morreria sem acabar a minha grande obra incompreendida, intitulada “Nobre Estripador”. Lutaria contra a doença com todas as minhas energias. Custasse o que custasse, não me deixaria morrer sem que o meu romance fosse publicado e devidamente apreciado. Animado deste pensamento de esperança e força interior, adormeci. Para sempre.
 

Hugo V. Costa



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Quarta-feira, 19 de Março de 2008
Uma lágrima na Bica
Março 19, 2008
Se desejares com força poderás sempre esquecer uma coisa. Mas se desejares ainda com mais força não poderás nunca fazer com que não tenha acontecido. Mas será este o tempo verbal? Será esta a conjugação correcta? Careço de explicações pois o português nunca foi o meu forte. Em tudo o resto fui fraco. Mas uma coisa eu sei. Julgo que sei. Estes pensamentos levam-nos sempre ao ponto de partida. Ao local onde tudo começou. Onde tudo sempre começa. E onde me encontro agora. São 23 horas e mais alguns minutos que me custa a precisar. Está uma noite clara e quente, mas a minha pele está arrepiada como se respondesse a um primeiro toque. As primeiras vezes são sempre assim. Indecisas. Talvez de arrepiar, embora não saiba se é este o adjectivo ou a forma correcta de o dizer. O que sei é que acabo de entrar. O número que o cume da porta me diz está certo. Julgo que está. E não seria outro se tudo fosse de outra maneira. Também sei que está calor, muito calor. E que hoje me torno assassino. Sim, assassino. Aquele que mata. Aquele que decide. Sorrio ao pedir uma cerveja. Franzo um olho ao bebê-la. Está morta. Os dois seres de nojo que estão à minha frente ainda não. Ele, baixo como de vergonha. Ela, loira como nunca fora. Nem se o tivesse desejado muito.
No tecto, uma mosca desafia a sua curta existência, mas, astuta escapa ao crematório rumo à noite, pouco menos quente. No chão, com os seus pés inchados, o casal desencontra-se nas conversas, contrariando a provável ironia de se terem cruzado um dia na velha Calçada da Bica. Consigo imaginá-los, como pequenos fragmentos de um filme errático. Um a descer e o outro a subir. Podia ser o contrário. Riem-se de desdém. Um do outro. E eu de ambos.
Passo o dedo pela garrafa e sinto-me já em sintonia com a espelunca. Sujo. Peço outra cerveja e olho para a televisão que vomita banalidades. Uma retrospectiva do Elvis, julgo. "Only You". Sempre odiei o Elvis. Mas não só ele. A loira falsa que se comove agora também odeio. Parece-me menos feia assim que uma lágrima ameaça brotar-lhe dos olhos. É o fim. É o início. Aconchego o revólver em segunda mão nas calças. Será simples como uma inevitabilidade. Custará apenas o segundo em que se tornará num facto. Eu mato, tu matas, ele mata, nós morremos, vós morreis, eles morrem. Penso que se conjuga assim. Será assim? Para mais ela canta. E ele ri de gozo, as faces avermelhadas. O porco. Tiro o revólver devagar. Tremo ligeiramente. Não está ninguém em redor. O bar está vazio. O bar está sempre vazio. E cheira a podre. Ou a morte. Talvez seja de mim.
Puxo o cão atrás e sinto uma ténue comoção. Continuo arrepiado. Ela canta emocionada... "Only You". Julgo que se está a rir para mim quando o cano do revólver risca a barriga do balcão. Eu devolvo-lhe o sorriso. Quase cúmplice. Não. Cúmplice de verdade. Porventura pela primeira vez na vida. O sabor que navega na minha boca é agridoce. Pergunto-me se será sempre assim. Como se pudesse ser de outra maneira. Não juro, mas penso que a mosca voltou a entrar. Procurará o crematório no tecto? Estaria a noite ainda mais quente lá fora?
Fecho os olhos em contracção. Ou julgo cerrá-los. Podes obrigar alguém a fechar os olhos, mas ninguém a dormir. Estou acordado. E o tempo já quase se mastiga. Que horas serão? Nada mais será como dantes. Como se fizesse diferença. Como se tivesse um porquê. Como se não fosse tudo o mesmo. Abro-os agora, aos olhos. E vejo tudo em pormenor. Estou sentado. Primeira fila sobre o balcão. E são 00h00. Gosto de sessões que comecem a horas certas. Tudo se passa em tempo real. Presente do indicativo? Posso ver tudo. Sou aquele que tudo decide. Tenho sede.
- Mais uma cervejo... - avança o anão vermelho. E eu pergunto-me se ele teria dito cervejola caso o disparo à queima roupa não o tivesse interrompido. Penso que sim. Cervejola. Mas a bala atinge-o em cheio na têmpora. E o vermelho que jorra dela cai-lhe como um lenço demasiado garrido. A música é agora dos Beatles. Sempre odiei os Beatles. "All we need is love". Ridículo, não?
Se pudesse condensar aquela fracção de segundo diria que o meu maior desejo seria assassinar a Humanidade inteira naquele disparo. Ou amá-la como um todo. Faria diferença se pudesse ser de outra maneira? Podes obrigar alguém a estar contigo, mas ninguém a amar-te. Ele derruba agora as prateleiras de vinho rasco e cai. Ela? Ela olha para mim, ainda comovida pelo Paul McCartney e demais farsantes. Não parece sequer assustada. Uma lágrima cai-lhe porém das faces gordas. Talvez os tenha amado na juventude e puxado os cabelos que nunca foram tão loiros como hoje. Sobre ela disparo duas vezes. Falho o primeiro. Não o segundo. Ela tropeça e agarra a garganta. Quase parece sorrir, mas talvez fosse do choro, nunca percebi a diferença. A lágrima, essa, sei que é a mesma. Única. Gostava de a lamber para saber se é agridoce. Se é este o sabor da primeira vez. E se pode haver outro sabor a partir de agora que tudo mudou. O pudor impede-me. Silêncio agora, apetece-me gritar! A televisão não o respeita. Apetece-me fuzilá-la, sem mais. Mas é uma boa televisão. Deve ter sido cara.
Estou tentado a dizer que fecho os olhos neste instante. Mas estou a abri-los ao ouvir o tsss da mosca a arder no crematório. Fará diferença? A televisão continua a falar dos grandes ícones da música. Elvis; Beatles. Sei lá que mais. Odeio todos. Quase tanto como o casal de nojo defronte mim. São 00h00. Mas poderia ser outra hora qualquer de um outro dia qualquer. A cerveja ainda está morta nas minhas mãos. O casal de nojo não. Mas será esse o tempo verbal? A conjugação correcta? Se desejares com força podes esquecer uma coisa. Mas se desejares ainda com mais força não poderás fazer com que não venha a acontecer.
- Mais uma cerveja - peço, cúmplice, para o casal. Tremo ainda. Está calor.
- Uma cervejola gelada? - pergunta o anão a rebentar de rubro e com um esgar de riso nos lábios, enquanto ela ajeita o cabelo loiro e de raízes negras, talvez para seduzir o Elvis. Limpa a lágrima com um lenço. Imundo.
- Não, morta - respondo. Como se pudesse ser outra coisa.


Jorge Flores

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Segunda-feira, 10 de Março de 2008
A derradeira história do Homem-Planta
Março 10, 2008
A porta do roupeiro entreaberta deixava espreitar o interior de camisas gastas de tons neutros entre outras peças igualmente velhas e usadas que variavam nas tonalidades de azul-escuro, castanho ou cinzento. Às vezes preto e novamente cinzento ou castanho. No espelho interior da porta, manchado pelo tempo e humidade, reflectia-se um cenário quase monocromático de peças velhas e mal cuidadas de onde destoavam apenas as cores vivas de um aparente uniforme verde e amarelo pendurado num velho cabide.
Encostada à parede, a cama desfeita de lençóis encardidos e mantas sobrepostas de eras passadas transmitia ao quarto um cenário de desarrumação que se prolongava nos vários copos esquecidos sobre a mesa-de-cabeceira, lenços de papel sujos e amarrotados caídos no chão, peças de roupa abandonada sobre uma velha cadeira de madeira e sem brilho, e no bacio de plástico azul com manchas amareladas que espreitava aos pés da cama.
A casa era velha. Na pequena divisão da entrada, acumulavam-se caixas de papelão cheias e objectos inúteis amontoados, por debaixo de casacos grossos de cores escuras, pendurados num cabide de parede. Pratos, panelas, frigideiras e talheres, com restos de comida, dividiam a desordem de uma pequena bancada de mármore e uma boa área da mesa da cozinha. Batatas mirradas e cebolas moles amontoavam-se em caixas de plástico ou papelão, a par dos sacos de plástico de cores berrantes e amarrotadas. Ao lado do fogão de bicos tisnados e superfície engordurada, o velho frigorífico insistia num zumbido monocórdico e prolongado, entrecortado de estalos regulares.
Na sala, sentado no pequeno sofá às riscas castanhas do canto junto à janela, o homem afagava a barriga flácida e proeminente. Rosto descaído com duas rugas vincadas dos lados da boca, nariz vermelho e esponjoso, e olhos fundos e vazios. O cabelo é branco e ralo a deixar ver uma testa demasiado grande. Tem os braços grossos mas moles.
A divisão estava na penumbra com os estores descaídos a meia janela a deixarem entrar uma luz tímida de Outono. Um último rectângulo estreito de luz fugidia desenhava-se aos seus pés. No resto, a mesma desordem monótona de lixo e objectos inúteis espalhava-se sobre o sofá grande, um cadeirão velho, a mesa da sala, e pelos cantos de chão encostados às paredes, enquanto a televisão fora de época aguardava, paciente, em cima da mesinha, o horário da noite para se tornar o centro das atenções.
O homem contemplou com indiferença toda a extensão do cenário desolador antes de se levantar com dificuldade. Os sessenta anos pesavam-lhe nos ossos. Bebeu o que restava do vinho que estava num copo ao lado do sofá e caminhou vagarosamente para o quarto. Espreguiçou-se longamente antes de voltar a acariciar o ventre com as duas mãos. A porta entreaberta do roupeiro chamou-lhe a atenção. Observou o interior com desinteresse e deitou uma olhadela ao espelho. Voltou de novo a atenção para as roupas e, subitamente, algo lhe chamou a atenção. Com cuidado, retirou o cabide de onde pendia o traje verde e amarelo de aspecto invulgar. Ficou a contemplá-lo à sua frente, largos minutos, com o cabide a pender do braço esticado. «Passámos muitas aventuras... Eu e tu... Muitas aventuras... Bons tempos que já lá vão... Bons tempos...» Tocou com leveza o tecido suave, agitando as pregas murchas.
Pendurou o cabide no puxador de uma porta fechada e abriu mais a que tinha o espelho, fixando-se no reflexo triste que este lhe devolvia. Empurrou para cima as peles moles da face com as duas mãos. Depois, fez músculo com força e pôs os braços em ângulo recto. Tocou num e noutro braço desesperando com a evidente flacidez. «Bons tempos que já lá vão...» E desceu as duas mãos para a barriga enquanto se virava num perfil que contemplou ao espelho. Lembrou-se dos cigarros consumidos à janela nos fins de tarde frios e, instintivamente, levou a mão ao bolso da camisa. Acariciou o maço junto ao coração como algo seguro e fiável.
O primeiro estrondo interrompeu-lhe o plácido encadeamento dos pensamentos sem se aperceber realmente do que estava a acontecer. Seguiram-se o segundo e o terceiro. E depois, mais três quase de seguida. Dirigiu-se à janela e viu mais duas pedras embaterem com o mesmo estrondo num bidão de latão ferrugento e sossegado num canto do quintal. Do outro lado do muro, junto à entrada, três rapazes, muito novos, estavam de cócoras a apanhar pedras que serviriam para futuros arremessos. Ergueram-se e continuaram na mesma rotina. O embate das pedras no metal ferrugento produzia um som estridente que parecia agradar-lhes. «Diabo dos miúdos – disse com ironia – Não têm mais nada para se entreter senão isto... Diabo dos miúdos».
Deixou tombar a cortina à frente dos vidros e seguiu vagaroso para a cozinha. Abriu um armário, depois outro, vasculhando o interior impaciente. Depois, abriu e fechou outra porta. E repetiu os gestos mais uma vez. Por fim, decidiu-se a rumar à sala. Por momentos, aparentemente perdido, acabou por se dirigir à mesa, onde, depois de desviar um monte de jornais e revistas velhos, encontrou um saco transparente com rebuçados coloridos, que agarrou com avidez.
Satisfeita a ambição dos seus gestos, deslizou sorridente pela divisão da entrada de novo em direcção à cozinha e daí para a porta que abria para o quintal. Mais uma vez, espreitou através do vidro os rapazinhos que entretinham o tédio no arremesso de pedras ao bidão. Ficou assim, indeciso neste olhar longo para a repetição de gestos lassos, por um minuto ou dois, antes de se decidir a abrir a porta para o exterior. Entretidos nestes afazeres, os rapazes nem deram pela figura barriguda e mal vestida que estacara à porta da casa. Até que aquele que parecia o mais velho dos três deu o alerta e os outros dois prontamente agarraram as mochilas e malas caídas no chão, prontos para a retirada.
A reacção imediata dos miúdos toldou a perspectiva do velho cujas pernas tremeram até quase cair. Encostou-se no caixilho da porta e acenou em esforço o saco de rebuçados à altura da cabeça. «Eh! Não precisam ter medo! – gritou numa voz rouca – Venham cá! Não precisam ter medo!» Do outro lado do muro, os três rapazinhos deitaram um olhar amedrontado para aquela figura de aspecto sujo e desagradável que os chamava, e puseram-se em cima das bicicletas. O velho gritava. «Venham cá! Tenho aqui isto... para vocês! Ouviram?» Um dos miúdos ainda o olhou uma última vez, deixando que os outros partissem à sua frente, mas depois, também ele desatou a pedalar depressa ao encalço dos amigos.
Nesse fim de tarde, de novo dentro de casa, o velho foi à cozinha buscar uma garrafa de plástico com vinho e regressou para o sofá da sala, onde bebeu dois copos de seguida, enchendo logo um terceiro. Depois, permaneceu o resto da tarde na penumbra, sentado no sofá em frente da televisão desligada, com o saco de rebuçados de cores vivas em cima dos joelhos. Mecanicamente, um após outro, retirou todos os rebuçados de dentro do saco, desembrulhou-os com mãos trementes e gestos lentos e comeu-os. Às vezes, interrompia este processo com um cigarro que fumava também devagar. 

J.P. Limão
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